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Fellini: para lembrar do cineasta da memória

Luiz Zanin Oricchio

08 Fevereiro 2010 | 13h31

Apesar de superficial e meio kitsch, o musical Nine tem o mérito de chamar a atenção sobre Federico Fellini. Em especial sobre sua obra-prima, 8 1/2, da qual Nine se quer comentário e homenagem – mais homenagem que comentário, diga-se. Não que Fellini tenha necessidade de ser colocado em evidência. De certa maneira, ele nunca sai de cena. Por um motivo dos mais simples: poucos diretores, como ele, conseguiram conciliar altíssimo nível de realização artística com grande aceitação popular. Muitos dos seus filmes foram sucesso e têm sido lançados em DVD. Boa parte da filmografia já se encontra disponível no formato.

Agora mesmo acaba de sair, pelo selo Versátil, o DVD anunciado como “cópia definitiva” do seu primeiro filme de sucesso – Os Boas-Vidas, de 1953 (R$ 44,90). Antes, Fellini já fizera parceria com Alberto Lattuada em Mulheres e Luzes (1950), seguido por seu primeiro longa-metragem-solo, Abismo de Um Sonho (1952), fabuloso fracasso de bilheteria. I Vitelloni (Os Boas-Vidas), seria, então, um daqueles pontos decisivos em uma carreira, do tipo tudo ou nada. Outro fracasso, e poderia ser o fim. No entanto, foi apenas um enorme começo, com um tema original, tratamento cinematográfico surpreendente, além de um título que deixou todo mundo curioso.

Quem são esses vitelloni? São “bezerrões” de cerca de 30 anos, que ainda vivem com as famílias, sem rumo definido. No caso, os amigos Moraldo (Franco Interlenghi), Alberto (Alberto Sordi), Fausto (Franco Fabrizi), Riccardo (Riccardo Fellini) e Leopoldo (Leopoldo Trieste). Já se disse que Moraldo seria o verdadeiro alter ego de Fellini, pois é o único que escapa ao marasmo pantanoso da província e vai tentar a vida na cidade grande, como de fato registra a biografia do cineasta.

Contudo, uma interpretação mais complexa – e mais próxima do real – prefere ver a personalidade de Fellini estilhaçada nas dos cinco vitelloni. Ele é Moraldo, mas também o intelectual Leopoldo, o sedutor Fausto, o patético Alberto, o discreto Riccardo. Também é bom lembrar que, quando lhe chamavam de cineasta da memória, Fellini dizia que suas recordações eram, elas também, inventadas, quer dizer, reelaboradas e interpretadas. Dessa forma, os vitelloni compõem não exatamente um resumo do Fellini real, de carne e osso; incorporam, isto sim, aspectos de como ele desejaria ser – e também de como não desejaria. Traz, para essa construção, tanto o que aspira quanto o que rejeita na vida estreita da cidade pequena. Por isso, ainda hoje, o retrato provincial saído de Os Boas-Vidas nos parece tão completo, complexo, e comovente.

Apesar dessa sensação de autenticidade, nem uma única cena foi filmada em sua Rimini natal. Nem mesmo a mais famosa – os amigos olhando o mar numa tarde de inverno -, que foi registrada na praia de Óstia, próxima a Roma. O cinema dispõe dos seus próprios meios de construção e prescinde do realismo extremo para chegar até aonde se propõe. Ou seja, a uma recriação do real, que pareça mais verdadeira que a própria realidade. Fellini foi mestre absoluto nessa proposta – e Os Boas-Vidas, seu primeiro passo consciente nessa direção.

O engraçado é que Fellini era corroído por uma angústia particular, uma superstição, se quisermos. Ele achava que todo criador dispõe de um período de no máximo dez anos para produzir suas obras mais notáveis. Nos extras de Os Boas-Vidas há um depoimento interessante do crítico italiano Tullio Kezich, amigo e biógrafo de Fellini. Diz que o conjunto da obra de Fellini é consistente, do primeiro ao último filme. Porém, se, de fato, quisermos destacar o fundamental, iremos justamente de Os Boas-Vidas a 8 1/2, rodado em 1963. Quer dizer: dez anos, justos.

Mas ainda melhor é pensarmos que 8 1/2, em sua inspiração inicial, não passa de um trabalho de exorcismo sobre um impasse criativo. Como se Fellini temesse, após a obra anterior, o extraordinário A Doce Vida, ter chegado ao fim do ciclo. Na verdade, era apenas um soberbo recomeço.

(Caderno Cultura, 7/2/2010)