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Feliz Natal

Luiz Zanin Oricchio

19 de outubro de 2008 | 10h12

O tema das relações familiares – em sua vertente disfuncional – está na moda. Aliás, nunca deixou de estar, como prova, para citar apenas um caso, a filmografia do grande Mario Monicelli (Toh, la Nonna è Morta e Parente É Serpente). É por esse caminho que anda Selton Mello em sua estréia como diretor.

Um pequeno parêntese: Selton, junto a outro ator de sua geração, Matheus Nachtergaele, dá este ano um passo interessante em sua carreira. Como todos sabem, ele e Matheus são bem-sucedidos nas respectivas trajetórias como atores de sucesso. Tanto no cinema como na TV, tornaram-se bem conhecidos – ou alguém esquece a dupla que compuseram em O Auto da Compadecida, como Chicó e João Grilo? No entanto, resolveram dirigir cinema, e cinema de risco. Para tanto, encontraram uma mesma produtora, Vânia Catani, da Bananeira Filmes, disposta a bancar as “loucuras” de ambos. Os dois estão na Mostra, Selton com Feliz Natal e Matheus com A Festa da Menina Morta. Vale a pena ver ambos.

Mas voltemos a Feliz Natal, o trabalho de estréia de Selton. Obviamente, o título é uma ironia, pois pouca felicidade aparecerá nessa reunião natalina, que tem como protagonista o personagem Caio (Leonardo Medeiros). Ele é dono de um ferro-velho e de um passado complicado. Mas não menos encrencada é a família com a qual vai passar a festa. Theo (Paulo Guarnieri) é seu irmão, enredado em um casamento que não deu certo. Miguel (Lúcio Mauro), o pai, vive com uma garota de caráter, digamos, pouco claro. A cunhada, Fabi (Graziella Moretto), tenta encarar a frustração de um casamento desfeito. E, sim, a mãe, Mércia (Darlene Glória) é colocada como uma espécie de resumo, ou depositária, de todos os males, pecados e frustrações de cada um dos membros da família.

Uma palavra sobre Darlene – havia muito, talvez desde Toda a Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, que não a víamos em tamanha entrega a um papel. Darlene está em estado de graça e o diretor Selton Mello tem dito isso para quem quiser ouvir, em todas as entrevistas – o filme encontra nela a sua razão de ser. Sem Darlene, Feliz Natal não teria a mesma energia. De Darlene vem a força, a paixão, a contradição mesma dessa personagem dilacerada, entregue à bebida e às drogas.

Não parece que isso se dê por acaso. Toda Nudez Será Castigada, de 1973, é uma aguda adaptação da peça homônima de Nelson Rodrigues. O filme consagrou Darlene no papel de Geni e, de certa forma, parece que esse personagem revive, e ganha outra dimensão, 35 anos depois, em Feliz Natal. É através de Darlene, mas não apenas, que Feliz Natal ganha tom nitidamente rodriguiano. No paroxismo, nas interpretações extremadas, nos sentimentos dilatados até o limite, como nunca corda tensa, prestes a romper.

Embora, se o caso for falar de referências, não se deva deixar de fora o jovem cinema argentino, em especial o de Lucrecia Martel de O Pântano. Também para a diretora o tema prevalecente é o da família em dissolução, reunida e devidamente embriagada em torno de uma piscina que mais parece um charco imundo. Esse jogo de metáforas, mas também um clima rarefeito e malsão, fazem a força desse filme, talvez ainda o melhor na filmografia da diretora.

Feliz Natal parece testemunhar a estréia de um cineasta promissor. De alguém que viu muitos filmes e, inevitavelmente, dialoga com eles. Essas referências cruzadas têm também valido algumas críticas a Selton Mello. “Um filme-portfólio de cinefilia”, como já se ouviu por aí. Ou, então, feito de propósito para se tornar um cult, cheio de clichês de “filme de arte”. Algumas dessas observações fazem sentido. Como no Brasil o cinema é arte descontínua, nenhum estreante pode saber ao certo depois de quanto tempo poderá fazer o filme seguinte, se é que ele existirá. Daí a tentação de colocar tudo no primeiro. Tudo o que sente, pensa, o que já leu em livros e viu numa tela. Há um pouco dessa sobrecarga em Feliz Natal, que ainda assim, continua forte e dotado de personalidade.

Serviço
Unibanco Arteplex 2 – Hoje, 15h10
Espaço Unibanco Pompéia 1 – 2.ª, 15h50
Cinemark Cidade Jardim – 3.ª, 21h30

(Cultura, 19/10/08)

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