Feliz aniversário, cinema!
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Feliz aniversário, cinema!

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2020 | 10h59

O cinema, tal como o conhecemos, completa hoje 125 anos. Ele nasceu dia 28 de dezembro de 1895, em Paris. Nessa data, no Salon Indien du Grand Café, Boulevard des Capucines, aconteceu a primeira exibição pública das imagens em movimento. Uma sessão de 30 minutos, com dez filmetes dos irmãos Louis e Auguste Lumiére. 

Apenas 33 espectadores pagaram ingresso para testemunhar essa primeira exibição. Mas, nos dias seguintes, a sala lotou. Foi, também, o primeiro boca a boca da história. Os parisienses que haviam experimentado o “cinematógrafo” passaram a recomendá-lo  a parentes e amigos. A boa nova se espalhou como febre. Poucos anos depois estava em praticamente todos os países do mundo, Brasil inclusive.  

Thierry Frémaux, presidente do Institut Lumière, conta como se deu a história. Quem teve a ideia, originalmente, foi o pai de Louis e Auguste, o empresário Antoine Lumière. Ele havia visto o Kinetoscópio de Thomas Edison, aparelho individual que fazia uma imagem minúscula se mover quando se colocava uma moeda para pô-lo em marcha. Antoine teve um estalo: “Precisamos tirar a imagem dessa caixa e projetá-la numa grande tela diante de um público”, disse. Como tinha assuntos urgentes a resolver em sua empresa, em Lyon, deixou o novo projeto a cargo dos filhos. O primeiro filme projetado diante de um público pagante foi Saída dos operários da Fábrica Lumière. E o resto é história.

O cinema nasce com esse DNA: tela grande, sala escura, público reagindo às imagens. Reza a lenda que Georges Meliès estava nessa primeira sessão. O certo é que tentou em vão comprar um cinematógrafo dos Lumière, que não quiseram vendê-lo a um possível concorrente. Certo também é que, quando Meliès conseguiu o dispositivo, fundou a corrente ficcional do cinema com filmes fantásticos como Viagem à Lua

Mostrando sua vocação popular, o cinema logo fascinou o distinto público e arrastou multidões às salas. Para obter o selo de qualidade artística, levou um pouco mais de tempo. Hollywood fez do cinema um negócio extraordinário e global, uma arma política e econômica – “Onde os nossos filmes chegam, chegam também todos os nossos produtos”, teria dito o presidente Roosevelt. Seu oposto ideológico também reconheceu a importância das imagens em movimento – para Lênin, o cinema era a mais importante das artes do século 20. 

Arte, comércio e tecnologia, o cinema avançou com rapidez. Pioneiros como Griffith inventaram sua linguagem específica, sua maneira particular de contar histórias, diferente da do teatro. Vieram o som, as cores.  E um terrível desafio, que poderia significar seu fim: a televisão. O cinema passou por esta prova e por muitas outras, como a chegada do vídeo doméstico e do DVD. A cada vez, os prognósticos sobre o fim do cinema se repetiam. Todos erraram. 

Então veio o streaming, essa nova ameaça, e dotada de surpreendente musculatura. Estávamos nesse ponto, no final de 2019, discutindo se o cinema seria absorvido pelas plataformas de streaming ou se as duas modalidades de ver filmes conviveriam e poderiam, até, ajudar-se mutuamente. Veio a pandemia. 

E cá estamos, no final de 2020, a discutir se o cinema, que se saiu tão bem dos desafios anteriores, conseguirá sobreviver ao fechamento do circuito devido ao novo coronavírus. Muitos cinemas do mundo continuam fechados, inclusive em sua pátria-mãe, a França, atingida agora pela segunda onda do vírus. Em outros, como no Brasil, estão abertos. Mas não atraem o público que se esperava. Apesar de todas as garantias, muitas pessoas ainda têm medo de se reunir em espaços fechados. 

Nesse seu 125° aniversário, o futuro do cinema parece incerto. Não sabemos o que será dele quando por fim a pandemia for vencida. O negócio cinema haverá de contabilizar muitos estragos. Será possível repará-los? As pequenas salas, aquelas nas quais se exibem obras mais arriscadas, sobreviverão? Ou apenas os grandes complexos globais terão futuro? Turbinado pelo isolamento compulsório das famílias, o streaming, que já crescia muito em 2019, avançou em grandeza geométrica neste malfadado ano de 2020. Esse público conquistado desistirá de vez das salas ou retornará aos poucos, assim que se sentir mais seguro?

Como saber? Se o cinema é uma arte que se define por seu meio de exibição, podemos apostar que, de uma maneira ou outra sobreviverá. O lugar – central ou marginal – que ocupará em meio ao universo da experiência audiovisual permanece em aberto. Nascido com o público, o cinema depende desse mesmo público para vencer mais esta. 

 

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