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Feijão e filmes

Luiz Zanin Oricchio

28 de outubro de 2006 | 20h47

Fui de manhã à coletiva da Mostra onde se divulgaram os filmes finalistas ao troféu Bandeira Paulista. Foram os mais votados pelo público e agora o júri oficial escolhe o ganhador. No final do post reproduzo a relação dos longas.

Depois da coletiva, realizada no Arteplex, fomos à tradicional feijoada da Mostra, que é servida no restaurante do Edifício Itália. É uma vista magnífica da cidade, que tem encantado os gringos que aqui vêm prestigiar a mostra e exibir seus filmes. Dei carona ao meu amigo Pedro Butcher, editor do boletim Filme B e um dos melhores críticos da nova geração. Como estacionei na Avenida São Luís, aproveitei para explicar ao Pedro, que é carioca, que aquele havia sido um dos pedaços mais agradáveis de Sampa, muitos anos atrás.

A Biblioteca Municipal, a Galeria Metrópole com seu cinema, seus bares, suas mulheres e sua música, a Praça Dom José Gaspar com o Paribar, a Praça da República, com seu colégio antigo e jardim no meio: são doces memórias para um paulistano da gema como eu. Lembrei também que aquele é cenário do ótimo filme do Ugo Giorgetti, O Príncipe, que usa aquela locação justamente para mostrar a deterioração do centro da cidade. É triste lembrar como aquilo tudo era e como ficou.

Isso tudo eu já sabia há muito tempo, mas confesso que fiquei chocado quando avistei o prédio da atual Secretária da Educação, fincado no centro da Praça da República. Aquele prédio do século 19, antes de virar secretaria de Estado, foi o Instituto de Educação Caetano de Campos, colégio centenário onde estudei durante oito anos. Pois bem, a tradicional escola, por onde passaram tantos paulistanos, ilustres ou anônimos, foi pintado de uma cor pavorosa e está aviltado por obras, pelo que sei da linha amarela do Metrô. Construíram, no interior do colégio, um horrendo caixote de concreto que cobre toda a fachada antiga. Enfim, esse desleixo com a tradição é a maior prova de desamor que se pode dar em relação a uma cidade. Fica o registro.

Depois de traçar a feijoada voltei correndo para o Arteplex, onde assisti, na verdade revi, outro clássico do cinema político italiano, Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, de Elio Petri. O protagonista é meu ator favorito dessa fase, Gian Maria Volonté, que contracena com a brasileira Florinda Bolkan. Volonté vive uma alta autoridade policial. Assassina sua amante, interpretada pela Bolkan, e deixa no local do crime uma série de pistas que o incriminam. Só para demonstrar que um cidadão como ele está ao abrigo de qualquer suspeita mesmo quando tudo depõe contra. O filme, claro, é uma senhora pancada nas instituições italianas e provocou muita polêmica na época em que foi lançado, em 1970. Era, para variar uma época de instabilidade política, com a presença de grupos de esquerda lutando contra medalhões há muito instalados no poder. Cópia visualmente maravilhosa, da Cineteca Italiana, com algum problema no som. Mas, tudo somado, rever essa obra foi ótimo.

Seguem aí os filmes mais votados pelo público e que disputam o Bandeira Paulista:

1. A BATALHA DE PARIS (NUIT NOIRE)
França
Direção: Alain Tasma

2. AMU
EUA / Índia
Direção: Shonali Bose

3. ANCHE LIBERO VA BENE
Itália
Direção: Kim Rossi Stuart

4. COISAS QUE O SOL ESCONDE (HADVARIM SHEMEHAHOREI HASHEMESH)
Israel
Direção: Yuval Shafferman

5. GO ETXEBESTE! (AUPA ETXEBESTE!)
Espanha
Direção: Asier Altuna, Telmo Esnal

6. MINHA VIDA SEM MINHAS MÃES (ÄIDEISTÄ PARHAIN)
Finlândia
Direção: Klaus Härö

7. NOEL – POETA DA VILA
Brasil
Direção: Ricardo van Steen

8. O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
Brasil
Direção: Cao Hamburguer

9. O CHEIRO DO RALO
Brasil
Direção: Heitor Dhalia

10. O EDIFÍCIO YACOUBIAN (OMARET YACOUBIAN)
Egito
Direção: Marwan Hamed

11. O VIOLINO (EL VIOLIN)
México
Direção: Francisco Vargas

12. OS 12 TRABALHOS
Brasil
Direção: Ricardo Elias

13. QUE TAN LEJOS
Equador
Direção: Tania Hermida

14. SHORTBUS
EUA
Direção: John Cameron Mitchell

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