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Febre Amarela: relato de uma quase morte

Luiz Zanin Oricchio

15 de janeiro de 2008 | 17h02

Em tempo de paranóia nacional por causa da febre amarela, aproveito para recomendar a leitura de Médico Doente, do dr. Drauzio Varella. O livro não é grande, tem umas cento e poucas páginas. Li de uma vez só, mais uma vez seduzido pelo poder de narração do homem – afinal, ele é autor de Carandiru, o extraordinário bestseller sobre a vida carcerária.

Em Médico Doente, Drauzio conta como foi atingido pela febre amarela em uma de suas viagens à Amazônia e como quase passou desta para a melhor, como se dizia antigamente. É uma reflexão profunda sobre a vida e a morte. E, para quem esteve tão perto dela, traz uma revelação surpreendente – o desapego do moribundo em relação a tudo que o cerca, uma espécie de preparação natural para o fim. Esse desapego, que às vezes chocava o médico Drauzio quando o via em seus clientes, foi experimentado por ele próprio quando se tornou paciente. É uma lição de humildade, enfim.

E uma das razões da força dessa lição reside no seguinte: depois de escapar, ao redigir o livro, Drauzio não busca tirar grandes e transcendentais ensinamentos da experiência, o que converteria o livro em obra de auto-ajuda . Não sente que a sua vida tenha sido profundamente alterada pela súbita proximidade na morte. Nem acha que tenha mudado muito como pessoa. Talvez tenha saído mais sábio mas, modesto, esconde suas próprias conclusões. E, fazendo assim, deixa que cada um de nós tire as suas próprias lições daquela experiência terminal transcrita com tanta vivacidade.

Esse relato de uma quase morte nos torna a todos um pouco mais humanos.

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