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Fausto, de Sokurov, ganha o Leão de Ouro

Luiz Zanin Oricchio

10 de setembro de 2011 | 14h50

Confirmando o favoritismo já destacado pelo Estado, Fausto, a adaptação do russo Alexander Sokurov do clássico de Goethe, venceu o Leão de Ouro do 68º Festival de Veneza. O filme usa de toda a fantasia para transpor uma obra literária para a linguagem do cinema, criando um ambiente sufocante e envolvente, no qual o personagem não mede esforços para saciar sua sede de saber – e de poder. Sokurov, com este filme, completa sua tetralogia dedicada às figuras do poder: Moloch (Hitler), Taurus (Lenin) e O Sol (Hirohito) foram os anteriores. A vinculação de Fausto com os políticos atuais não é gratuita e Sokurov a enfatizou mais de uma vez durante sua permanência em Veneza. A ânsia de poder os leva a firmar pactos pouco recomendáveis, disse o diretor.

O Leão de Prata para melhor direção ficou com Cai Shangjun por Ren Shan Ren Hai, que chegou ao festival na undécima hora, a título de filme-surpresa. A história é a de uma vingança, com o personagem perseguindo o assassino do seu irmão de maneira implacável. Mostra um retrato não menos áspero da realidade chinesa e, de fato, é muito bem dirigido.

O Prêmio Especial do Júri foi para Terraferma, do italiano Emanuele Crialese, único troféu para os filmes da casa, na mostra principal. Sabia-se que teriam de arranjar um prêmio de porte para um filme italiano, pois senão o desgaste da atual direção seria muito grande. Por sorte, Terraferma, um emocionante reconhecimento de que os italianos não tratam muito bem os imigrantes, é obra de qualidade e emoção. Crialese, em seu terceiro longa-metragem (os outros dois são Respiro e Novo Mundo, ambos lançados no Brasil), é diretor em franco progresso.

A Coppa Volpi de melhor ator ficou para Michael Fassbender, o queridinho das mulheres do festival,  por Shame, do britânico Steve McQueen. No filme, Fassbender interpreta Brandon, um personagem viciado em sexo. Ao mesmo tempo, a história é crítica em relação a determinado modo de vida, yuppie e consumista, típico das grandes cidades – o longa é ambientado em Nova York.

A Coppa Volpi de melhor atriz foi para Deanie Yip por sua interpretação Tao Jie (Uma Vida Simples), da chinesa Ann Hui, uma vitória já dada como certa neste quesito. É uma história bonita, sobre uma mulher que serviu fielmente uma família de Hong Kong durante 60 anos até adoecer e ser internada numa casa para idosos. Um dos filhos da família a apoia até o fim, o que torna esse trabalho também uma homenagem ao sentimento da gratidão. A atuação de Deanie é, de fato, o que o filme tem de melhor.

O Prêmio Marcelo Mastroianni para ator ou atriz emergente foi dividido entre Shota Sometani e Fumi Nikaidô, pelo trabalho em Himizu, do Japão. O filme é irritante, muito em função da atuação gritada da dupla vencedora. Mas também há que se destacar que é a primeira obra ficcional japonesa após o terremoto, seguido de tsunami e acidente nuclear em Fukushima. Tem seu valor pela atualidade e mensagem de que o país tem tudo para se reconstruir.

A Osella para melhor contribuição técnica foi para a fotografia de Robbie Ryan na nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes (Whutering Heights). É bonita, sem dúvida. E tem clima.O detalhe com essa versão da obra de Emily Brontë é que, pela primeira vez, o herói problemático Heathcliff é intepretado por um ator negro, James Howson.

A Osella para melhor roteiro ficou Yorgos Lanthimos e Efthimis Filippou do grego Alpis. Pode-se dizer que o texto é mesmo engenhoso. Meio sem alma, na verdade.

Na mostra paralela Horizontes, os principais premiados foram Kotoko (Japão) como melhor ficção, e o documentário Whores’s Glory (Áustria e Alemanha) pelo Prêmio Especial do Júri.

Para não dizer que o Brasil passou em brancas nuvens, Girimunho, da dupla mineira Clarissa Campolina e Helvécio Marins, recebeu o Interfilm Award for Promoting Interreligious Dialogue.

Para finalizar com um comentário sobre a premição principal do júri presidido pelo norte-americano Darren Aronofsky: Fausto, o vencedor, era, de fato, um dos favoritos. Tinha pinta de campeão, como gente que segue festivais internacionais há muitos anos podia detectar sem dificuldade. Mas dois dos favoritos, Carnage, de Roman Polanski, e The Ides of March, de George Clooney, saíram de mãos abanando. Carnage, adaptado da peça de Yasmina Reza, montada no Brasil, era mesmo o preferido entre os 21 críticos que atribuem as temidas (e adoradas) estrelinhas no boletim do festival. Fausto vinha em segundo lugar. Os norte-americanos, a maior delegação, com cinco concorrentes, saiu de mãos abanando.

Foi um bom festival.

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