As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Farkas segundo seus amigos Sarno, Capô e Muniz

Luiz Zanin Oricchio

15 de abril de 2010 | 17h59

Ontem pedi depoimentos aos cineastas Geraldo Sarno, Maurice Capovilla e Sérgio Muniz para a matéria sobre Thomas Farkas, pois eles haviam trabalhado juntos. Como sabe qualquer um que já pisou num jornal, a gente depende do espaço disponível para editar nossas matérias. Assim, tive de cortar os depoimentos sem piedade. Como estão muito bons, reproduzo-os na íntegra aqui no blog. Ficam disponíveis aos interessados e passam a figurar nos nossos arquivos eletrônicos.

Geraldo Sarno

Thomas foi o meu primeiro parceiro em cinema. Um parceiro apaixonado pelo cinema, especialmente pelo cinema documentário. Parceiro não apenas como produtor atento, preocupado com o andamento do trabalho, mas sobretudo como fotógrafo. A exceção das sequências fotografadas por Armandinho (os pentecostais na praça, a documentação da dança na umbanda de Mãe Tudinha, as cenas de umbanda na praia e a distribuição de comida e brindes de Natal num bairro de São Paulo), com Viramundo teve início a parceria que prosseguiu até 67 com a viagem que fizemos por vários estados do Nordeste, em companhia de Paulo Rufino. Desta viagem resultaram os materiais básicos que vieram a compor os núcleos dos filmes Os imaginários, Jornal do sertão, Vitalino/Lampião, e Eu carrego um sertão dentro de mim. Todos eles filmados em negativo 16mm, preto e branco, que os distingue dos filmes fotografados por Affonso Beato, em 69, filmados em reversível e em cores. É verdade que o próprio Affonso, como também Lauro Escorel, durante essa viagem de 69, também fotografaram em negativo 16mm, material esse que incorporei aos filmes em preto e branco já citados. Mas foi com o Thomas e Paulo Rufino, em 67, que filmamos, além do Coronel Chico Heráclio, na Fazenda Varjadas, em Limoeiro, o “imaginário” Mestre Noza em sua oficina, no Juazeiro do Norte, o gravador Walderêdo Gonçalves, no Crato, o ceramista filho de Vitalino, no Alto do Moura, e o cantador Severino Pinto em sua casa, na rua Porto Alegre, Caruaru.  Testemunhar os momentos de criação desses artistas foi para mim uma dádiva para sempre. E Thomas carregou o chassis com película virgem, mediu a luz e empunhou a câmera que documentou esses momentos, que a magia do cinema permite compartilhar com todos os espectadores.

Maurice Capovilla

Thomaz Farkas vem a ser o mecenas e o arquiteto de um novo cinema documentário  que nasce em São Paulo no inicio dos anos 60, a partir de duas vertentes: a que vem do cinema clássico de Dziga Vetov até Jean Rouch e por outro lado , a vertente  principal, a que nasce em 58 na Escola de Santa Fé, com Tiré Dié,  por obra de Fernando Birri. A  presença de Birri  e sua equipe  unifica o grupo de jovens paulistas que vão dar forma e conteúdo aos documentários produzidos e fotografados por Thomaz. Sua figura de mestre da arte fotográfica  e aprendiz da realidade por descobrir,  nos serviu de modelo para enfocar um mundo que estava em nossa volta, do imigrante ao cangaceiro, do carnavalesco ao craque do futebol, personagens de realidades distintas, ocultas até aquele momento pelo véu dos cine-jornais e dos institucionais de Primo Carbonari. O mergulho foi possível com o manejo de  uma Arriflex 16mm e um gravador Nagra, instrumentos imprescindíveis para descobrir o pensamento, a face real e a voz do homem brasileiro.

Sérgio Muniz

Como fotógrafo, ainda que tardiamente, já foi amplamente reconhecido (vide livros publicados, exposições feitas no Brasil e no exterior).

Como produtor, resumidamente caberia destacar:

1) a oportunidade sem limites que deu a jovens que então queriam começar a fazer cinema (vide Geraldo Sarno, Paulo Gil Soares, Maurice Capovilla e eu mesmo;

2) a total independência para escolher os temas dos documentários que viriamos a fazer entre 1964 – 1980;

3) a não interferência no acabamento dos documentários, nunca tendo censurado nenhum tema, nem contestado a montagem, nem pedido para tirar esta ou aquela sequência;

4) ter colocado a mão no próprio bolso para produzir os documentários, numa época sem leis de incentivo;

5) a delicadeza inovadora que demonstrou ao fazer o documentário sobre o musico Hermeto;

6) e a iniiciativa que tomou, entre 1995-97, uma vez mais com seu próprio dinheiro, de transferir todos os documentários para um suporte magnético inicialmente analógico e em seguida digital.