FAM 2019: Espero tua Re(volta)
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FAM 2019: Espero tua Re(volta)

Luiz Zanin Oricchio

01 de outubro de 2019 | 15h58

FLORIANÓPOLIS – Fazia alguns anos não vinha a esta bela cidade e ao FAM, o Festival Audiovisual Mercosul. Cheguei ontem, do Festival de Cinema de Vitória, e virei a chave de maneira muito intensa com o documentário Espero tua Re(volta), de Eliza Capai. 

Já havia cercado esse filme várias vezes e nunca tinha  conseguido vê-lo. Sempre acontecia alguma coisa para impedir. Ontem rolou. E numa sala de cinema ótima, com imagem e som exemplares. Toda a força desse documentário sobre os movimentos estudantis secundaristas bate na tela e em nossos corações e mentes. Nosso lado sempre será o dos estudantes. 

E mais do que nunca no Brasil contemporâneo, em que lutas e reivindicações antigas têm de ser reavivadas em ambiente regressivo, como se precisássemos reafirmar que educação é fundamental, racismo e sexismo são ruins e que todo mundo tem direito à felicidade e ao próprio corpo. No admirável mundo novo bolsonarista temos de voltar ao óbvio. 

No filme de Capai, trata-se, em seu núcleo, da revolta dos secundaristas paulistas pela reorganização das escolas propostas pelo então governador Geraldo Alckmin. Com toda razão, os estudantes suspeitaram que a tal reforma se faria contra seus interesses. Saíram às ruas, enfrentaram a polícia, ocuparam os prédios dos colégios. Encontraram solidariedade mas também muita incompreensão em uma sociedade que não gosta de ser incomodada e quer todo mundo quietinho, em casa e de cabeça baixa. 

Há imagens de confrontos, de enfrentamentos físicos e verbais com a PM, mas também da intimidade das ocupações e de como, na luta politica, se forjam consciências e amadurecimento. Tudo é muito bonito e nos dá esperança, neste momento em que precisamos tanto dela. 

Sentindo a necessidade de contextualizar, Espero tua Re(volta) regressa um pouco no tempo. A luta dos secundaristas é de 2015, mas o filme volta às manifestações gigantes de 2013, as famosas Jornadas de Junho, que colocaram em xeque os governos de então, em especial  Dilma, na presidência, Alckmin no Estado de S. Paulo, Haddad na prefeitura paulistana. Tudo virou de pernas para o ar e a direita enxergou na perplexidade geral uma janela de oportunidade para tomar as ruas e infletir, em sua direção, um movimento que começara pela esquerda como protesto contra o aumento da tarifa de ônibus. 

Na sequência vieram a eleição apertada de Dilma no ano seguinte, a contestação imediata do pleito pelos derrotados, os problemas da eleita com o Congresso, a abertura do impedimento, o impeachment-golpe, Temer e, por fim, a chegada da extrema-direita ao poder pelo voto popular. Os estudantes têm visão do processo e esta consciência é a espinha dorsal do desenvolvimento do filme. 

Há nele a beleza e a energia do protesto juvenil. A coragem e a generosidade. Mas também esse amadurecimento de perceber que as lutas nem sempre dão certo e a sociedade não se move na direção que gostaríamos, por melhor que sejam nossas intenções no momento da batalha. 

Não sei se o filme é pessimista ou otimista. Acho que nem uma coisa e nem outra. É realista. Documenta um desses raros momentos em que a população brasileira sai da pasmaceira habitual e reivindica aquilo que lhe parece justo. No mais, fica todo mundo em casa, vendo séries americanas ou checando quantos likes ganhou em seu perfil do Face. E resmungando contra a política, como se nada tivesse a ver com ela. 

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