As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Faltou um Zito

Luiz Zanin Oricchio

02 de março de 2010 | 09h40

Domingo, na Vila, um torcedor um pouco mais veterano, suspirou: “Por isso é que aquele time dos anos 60 era grande; além de bom de bola, jogava com seriedade o tempo todo.” A bronca veio num momento do jogo em que o Corinthians já tinha perdido dois jogadores por expulsão e o jovem time do Santos, ao invés de aproveitar a oportunidade e meter uma goleada histórica, ficou tocando a bola de lado e fazendo firulas em campo.

Vamos dar o desconto: torcedor do Santos, em especial os que viram Pelé, Coutinho & Cia ao vivo e em cores, é rabugento mesmo. Nunca está satisfeito com nada, o que acaba ficando chato, pois, no limite, mostra-se incapaz de curtir a beleza deste time que surpreende a todos – até mesmo a este cronista que, no começo do ano, apontou o Santos como a quarta força do futebol paulista. Mea culpa, mas como adivinhar que time tão jovem daria liga em tão pouco tempo? Surpresas – agradáveis – do futebol.

Mas há um lado verdadeiro na bronca do torcedor – que, aliás, não foi exclusiva dele, pois uma boa parte da torcida que estava na Vila Belmiro se irritou durante os 20 minutos finais do jogo, quando o Santos tinha superioridade no marcador, dois jogadores a mais e deixou um Corinthians valente quase empatar o jogo. Eles exageraram e foram pouco objetivos. Teria sido um castigo cruel, mas talvez funcionasse como lição interessante para os meninos. E que lição é essa? Não se brinca impunemente com o futebol. Ou, como dizia certo técnico mal-humorado: a bola pune. Talvez naquele momento de dispersão, quando devia ir para cima do adversário enfraquecido e liquidar a parada, tenha faltado ao Santos um Zito, um grande comandante para botar ordem na casa e recolocar o time nos eixos quando começa a descarrilar.

Era o que fazia o capitão daquele time inesquecível. Cercado de cobras criadas por todos os lados, grande jogador ele próprio, cabia a Zito passar descomposturas em quem saísse da linha. O próprio Pelé ouvia de cabeça baixa o que o capitão tinha a dizer. Um líder desse tipo não inibe ninguém; pelo contrário, facilita a vida da molecada que encontra nele um ponto de referência, quase uma figura paterna. O problema é um só: onde achar um Zito hoje em dia?

Em falta de um líder dessa qualidade, o jovem Santos vai caminhar no fio da navalha: como encontrar o limite certo entre o talento, que produz o futebol arte, e a soberba, que pode botar tudo a perder? Ninguém deve podar a irreverência desses garotos, que estão jogando o fino da bola. Mas alguém tem de dizer a eles que o grande espetáculo precisa de uma conclusão à altura – a bola no fundo da rede. Caso contrário é só espuma. Cabe a Dorival Jr., que está fazendo um grande trabalho com esse time, explicar aos jovens esse fundamento maior do jogo. Você respeita um adversário quando faz nele o máximo de gols que puder.

INFÂNCIA BRASILEIRA

Além de Neymar, Ganso e André, outro menino chamou a atenção neste fim de semana: Wellington Silva, do Fluminense. O garoto fez um dos gols na vitória sobre o Friburguense e, na entrevista, chorava a ponto de dar dó. Minha mulher, ao ver a emoção do moleque, também puxou o lencinho. Enfim, era uma cena de novela mexicana – no bom sentido, é claro. Eu via no menino um pouco da fisionomia de Pelé quando surgiu, um pouco da de Robinho e também me comovi. Depois, a emissora informou que Wellington tem 17 anos, já foi comprado pelo Arsenal e segue para a Inglaterra quando completar 18. Nesse ponto, quem teve vontade de chorar fui eu.

(Coluna Boleiros, 2/3/2010)