As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Faltou feitiço à biografia do poeta de Vila Isabel

Luiz Zanin Oricchio

02 de novembro de 2007 | 19h50

Ricardo Van Steen, diretor vindo da publicidade, tem uma grande história nas mãos – simplesmente a do maior compositor de sambas do País, Noel Rosa, autor de clássicos como Feitiço da Vila e Feitio de Oração e que, ainda por cima, morreu jovem, muito jovem, com 26 anos, fato que costuma contribuir para aumentar a força de um mito – repare, em outro campo de atuação, no que aconteceu com Che Guevara.

É pena que, com tantos ingredientes de primeira qualidade, Van Steen não tenha conseguido realizar um trabalho à altura do personagem. Tecnicamente correto, o filme passa, no entanto, um artificialismo difícil de ser vencido pelo espectador. Esse clima um tanto plastificado é uma armadilha recorrente de filmes de época, uma tendência muito fácil ao museológico, ao rançoso, ao emperrado. Sob o pretexto da verossimilhança, não é raro que esse tipo de produção flerte com o acadêmico, com o ‘certinho’ sem invenção. Há alguns agravantes: um Rafael Raposo um tanto deslocado não convence no papel de Noel Rosa, o feio charmoso que atacava nos cabarés da Lapa enquanto estudava Medicina. A relação com Aracy de Almeida, tão importante em sua vida, fica em segundo plano. E vem para a frente da cena, dominante, a paixão do poeta pela femme fatale Ceci, vivida por ninguém menos que Camila Pitanga. Ceci foi a musa inspiradora de clássicos como Dama do Cabaré e Último Desejo.

Noel conviveu com malandros e grandes compositores do seu tempo, como Ismael Silva (Flávio Bauraqui) e Cartola (Jonathan Haagensen). Teve uma vida de estróina total, suicida da boêmia, incapaz de alterar hábitos mesmo quando recebe diagnóstico de tuberculose, doença que, na época, não tinha cura, apenas tratamento paliativo. Noel tinha visão olímpica de sua situação de saúde. Numa das cenas engraçadas, e que fazem parte do anedotário conhecido, ele é visto, pela manhã, bebendo cerveja. Um amigo o repreende: ‘Bebendo a esta hora, Noel?’ O então ex-estudante responde com uma arenga sobre os valores nutritivos do malte e do lúpulo, ingredientes da cerveja. Ao que o amigo retruca: ‘E esse conhaque?’ Noel arremata, de letra, e com o senso de ironia e improviso que eram também marcas registradas de sua obra: ‘Mas você não quer que eu coma sem uma bebidinha, não é?’

A biografia de Noel Rosa oscila entre o cômico e o trágico. Figura ambivalente, era autodestrutivo e irônico ao mesmo tempo. Como ele, existem tantos por aí. Basta sair pela noite e conhecê-los. Mas Noel só existe um e depois a fôrma foi quebrada. O que mais nos interessaria, a nós, seus herdeiros, é como desse tipo de vida tenha saído tal obra. Mas o filme não demonstra muito interesse em compreender, sequer interpretar a gênese desse paradoxo tão fundamental para a cultura brasileira.

O balanço e a malemolência de Noel tampouco aparecem na linguagem do filme, dura e sem ritmo. Ninguém pede um documentário analítico ou uma apoteose de escola de samba. Podemos aprender muito com a ficção quando ela se revela um pouco mais ambiciosa e inspirada. Algumas vezes não aprendemos nada, mas nos divertimos. E às vezes não temos uma coisa nem outra.

(SERVIÇO)Noel – Poeta da Vila (Brasil/ 2006, 100 min.) – Drama.Dir. Ricardo Van Steen. 14 anos. Cotação: Bom

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.