Falta desejo ao País do Desejo
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Falta desejo ao País do Desejo

Luiz Zanin Oricchio

01 Fevereiro 2013 | 20h02

 

Os personagens de País do Desejo vivem em crise. Dois em particular. O padre José (Fábio Assunção) volta-se contra a Igreja em temas como aborto e o celibato. A pianista Roberta (Maria Padilha) está cada vez mais doente; tentou um transplante renal e foi mal sucedida. Há outros tipos problemáticos em torno deles: uma menina de 12 anos que foi estuprada e ficou grávida – sua mãe tem dúvidas se deve abortar o feto que causa perigo à saúde da filha. Um médico cético, que não consegue ver o alcance humano das situações e pensa estritamente a partir da ótica individualista. Um patriarca cuja mulher está em coma e sobrevive de maneira artificial. Um bispo intolerante. Uma enfermeira erotizada, cuja libido destoa do ambiente austero da casa..

Tudo é montado para que ocorra uma história de amor e abnegação, como nos velhos moldes do melodrama – ainda mais porque a trama será pontuada de música, já que a protagonista é uma pianista famosa. Há muito preconceito contra melodramas. Mas, então, pensamos em Douglas Sirk, ou Pedro Almodóvar, e como ficamos? Pode-se ser talentoso em qualquer registro. Gêneros, em si, não são o problema.

E talvez seja esse o desafio que tenha atraído Paulo Caldas, paraibano cujo é nome vinculado ao vigoroso cinema do Recife, tendo no portfólio filmes anteriores como Baile Perfumado (em parceria com Lírio Ferreira), O Rap do Pequeno Príncipe e Deserto Feliz. Figuras do cangaço, documentário sobre um marginal e a radical especulação sobre o mundo da prostituição infantil.

Agora, essa incursão por um universo opulento, porém cheio de problemas e conflitos como doenças, crises de vocação, dilemas morais e religiosos. O ambiente, mais do que a trama, lembra um pouco o do clássico Páginas ao Vento, de Sirk. Porém, sem a atmosfera viciosa que este sabia imprimir à sua observação da classe alta. País do Desejo, muito bem feito e bem filmado, parece pairar acima daqueles seres em sofrimento sem tocar-lhes de fato o interior. É tão asséptico quanto os ambientes hospitalares que servem de cenário a algumas das suas cenas.

Talvez seja essa contemplação um tanto distanciada dos personagens que trave a identificação do espectador com seus dramas. Ou seria a trama, em certos aspectos novelesca e rocambolesca, que produz dúvidas? Mas, quando existe paixão e envolvimento estamos prontos a aceitar enredos improváveis como os de Almodóvar. Não é o caso. Correto, bem interpretado e elegante, País do Desejo tem cenas muito bonitas, como a do casal tocando a dois uma peça de Erik Satie. Mas o filme não vibra. Não expressa justamente o que tem no título – desejo.

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