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Fados

Luiz Zanin Oricchio

19 de outubro de 2009 | 13h43

Fados, de Carlos Saura, segue o mesmo molde de outros filmes do diretor espanhol consagrados à música, como Sevilhanas, Flamenco (1995) e Tango (1998). Ênfase na música e na dança, sem grandes explicações externas a essas manifestações artísticas. No caso de Fados, elas se limitam a algumas poucas palavras escritas na tela logo no início, e que situam esse tipo de música em sua história e formação. Brevíssimas informações, que dão uma certidão de nascimento ao fado, com data (século 19) a local (Lisboa). Conta-se que o fado nasce num cadinho étnico, entre a gente pobre que vinha do interior do país, das colônias africanas e do Brasil. Nasce mestiço, nos pátios, nos prostíbulos e nas tavernas. Pouco mais se diz, e o resto, se não é silêncio, é som e luz.

Vemos – e ouvimos – alguns intérpretes tradicionais como Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro através de imagens de arquivo. Ao lado deles, cantores modernos do fado e até mesmo alguns brasileiros como Toni Garrido, Caetano Veloso e Chico Buarque. Chico, aliás, é responsável por uma das sequências mais emocionantes, quando canta seu Fado Tropical (parceria com Ruy Guerra) enquanto ao fundo são vistas imagens da Revolução dos Cravos.

De certa forma, essa sequência com Chico é uma exceção no filme. De maneira geral, as músicas são “ilustradas” por danças modernas, contra um fundo de painéis iluminados – à maneira dos outros filmes do autor. Há aqui uma novidade. A dança é inseparável do flamenco e do tango (embora, claro, eles possam ser apenas ouvidos), mas não é assim com o fado. Estamos mais acostumados a ouvi-lo, simplesmente, do que a vê-lo ser dançado. Mas – é bom que se diga – esse acréscimo em nada atrapalha ou parece artificial; pelo contrário, fornece elementos a mais de fruição: além do som, os corpos, o movimento, a luz. Se permitem o termo, encorpa ainda mais a música.

Saura também se preocupa em mostrar – nunca em falar – que mesmo o fado pode ser reciclado em formato contemporâneo, como é o caso da mistura com o funk ou mesmo com o rap, feito por músicos africanos lusófonos. Isso é ainda mais importante quando se pensa que o fado vem associado não apenas à tristeza como à nostalgia, esse sentimento tão associado a Portugal, mas que já cabe mal no figurino do país moderno e integrado à comunidade europeia. A maneira como o fado entra e fertiliza as manifestações contemporâneas desmente essa impressão de imobilismo.

Mas também é bom dizer que o melhor fado é aquele mesmo tradicional, na voz de um bom e velho cantor lusitano, com sua melodia em tom menor e letras falando do mal de amor. Um “fado menor do Porto”, na voz de Amália Rodrigues, é insuperável.

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