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Fábula do mundo mais gentil

Luiz Zanin Oricchio

31 Maio 2012 | 14h53

Nathalie (Audrey Tautou, de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) vive um casamento perfeito. Daí se entende o desamparo em que cai quando perde o marido. Viúva, tenta, sem muita convicção, refazer a vida. Entrega-se ao trabalho como forma de terapia, o que não é incomum, ainda mais hoje.

Esse é ponto de partida deste A Delicadeza do Amor, de David e Stephane Foenkinos. Informa-se que a obra cinematográfica é baseada no livro de David, um escritor de sucesso na França. Autor relativamente jovem, diga-se também, já que David nasceu em 1974. No Brasil, ele é editado pela Rocco.

Enfim, leva jeito também como diretor, embora procure não inventar nada. Talvez exatamente por isso. Vai no simples. Apenas coloca Nathalie num ambiente um tanto estranho e déplacé, deslocado vagamente do seu meio habitual. Se estamos na França, a firma em que ela trabalha, no entanto, é sueca. Comem uns estranhos biscoitos, os Krisprolls, e esbanjam polidez. Em especial quando a funcionária passa por aquele período difícil. No entanto, isso não impede que, depois do período sabático, ela se veja dividida entre a corte do patrão e um dos funcionários.

O fiapo de história é esse, e mais os seus desdobramentos. O importante é o tom meio fabular do relato e o fato que A Delicadeza do Amor pareça, de certa forma, um filme sobre seres “disfuncionais”. As pessoas também parecem deslocadas desse nosso mundo e de sua curiosa ética; meio que fora de foco numa sociedade ultracompetitiva, na qual o homem é o lobo do homem, segundo a velha frase de Hobbes para definir a sociedade sem Estado.

Em A Delicadeza do Amor (La Délicatesse) as pessoas, apesar de seus desejos e conflitos, parecem seres de exceção nesse nosso ambiente contemporâneo. Não tentam puxar o tapete umas das outras, e mesmo o mundo corporativo nem de longe se assemelha a uma selva. A tal ponto que um patrão disputa a mulher com um subalterno e nem por isso pensa em se valer da superioridade hierárquica para resolver a parada em seu proveito.

Bem, talvez seja um comentário lateral a esse filme que se desenvolve segundo um certo ar e lógica de fábula. Mas tem a ver com seu espírito geral e condiz com o título. Pois a grande questão (uma delas pelo menos) da atualidade diz respeito à perda desse sentimento de gentileza entre seres humanos. A delicadeza, hoje em dia, parece pouco menos que uma polidez formal, uma questão de verniz e maneiras. Talvez fosse a hora de trazer à baila essa grande questão que é a delicadeza dos sentimentos nas relações. Pode parecer meio idealista, quixotesco até, mas poucas coisas seriam tão urgentes. O mérito do filme é tê-la colocado em seu centro.

(Caderno 2)

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