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Eu Vou Rifar meu Coração

Luiz Zanin Oricchio

04 de agosto de 2012 | 10h07

Existe uma maneira brega e uma chique de amar e sofrer por amor? Eu Vou Rifar meu Coração, de Ana Rieper, em aparência discute essa questão. É mais nobre aliviar a dor de cotovelo ouvindo a música título, de Lindomar Castilho, ou Eu e a Brisa, de Johnny Alf? Seria interessante esmiuçar limites – se é que eles existem. Mas não é o que interessa ao filme.

A esse documentário importa investigar a modalidade amorosa do brasileiro do povo e como ele se expressa na canção chamada “romântica”, de Wando, Nelson Ned, Agnaldo Timóteo, Reginaldo Rossi, etc. Ouvem-se o que os intérpretes e compositores têm a dizer sobre a música. Ouvem-se suas opiniões sobre o processo amoroso. Ouvem-se pessoas anônimas e suas reações diante de um amor frustrado e de como encontraram conforto em algumas dessas músicas.

Nesse sentido, Eu Vou Rifar meu Coração não deixaria de ser um interessante “estudo” sociológico do ato de amor à brasileira. As aspas devem-se ao fato de que o cinema, estritamente falando, não “estuda” nada. Recolhe imagens, sons e falas e os ordena sob um determinado arranjo a que chamamos montagem. Nesse processo, expressa, no melhor dos casos, o ponto de vista do autor.

E, pela reação das plateias para as quais o filme tem sido exibido, esse ponto de vista tem sido entendido de maneira clara. O público ri. Porque, composto em sua grande maioria pela classe média, o público de cinema acha engraçados tanto os casos de amor das classes mais baixas, ou menos educadas, como as músicas que, supostamente, mais bem exprimem esses sentimentos. Desse modo, o doc transforma-se em comédia. Involuntária, talvez, mas não estou muito seguro disso. É, de qualquer forma, um olhar superior e irônico que registra as situações que escolhe para examinar.

Esse é um ponto. O outro é Lindomar Castilho, que fornece a canção título e um dos depoimentos. Para quem não lembra, Lindomar matou a esposa, a também cantora Eliane de Grammont, em 1981. Entrou num bar onde ela se apresentava, disparou cinco tiros, um dos quais a atingiu e matou. Lindomar foi julgado (foi um dos julgamentos rumorosos da época) e condenado. Cumpriu sete anos de prisão. Esse é o caso encerrado. Deveria ter sido omitido do filme? Eis a discussão. A omissão tem provocado reações estranhas no público. Assim que Lindomar entra na tela, ouve-se a reação de parte do público. Da parte mais madura, que conhece o crime. Os mais jovens e, sobretudo, as mais jovens, precisam ser informados da história para que entendam a reação dos outros. Depois, fica-se sabendo, mas não pelo filme, que a condição de Lindomar Castilho para dar o seu depoimento foi que o assunto sequer fosse mencionado.

Condição atendida, cria-se uma dissonância entre os que sabem e os que não sabem do crime, já que o próprio filme nada informa. Passa batido, sob a desculpa de que esse não é o seu tema. Como não? O filme fala do amor, dos ciúmes, das suas consequências. A própria fala de Lindomar, bem ouvida, não passa de uma tentativa de justificação do seu ato, sob o olhar e ouvido impassíveis da diretora.

Há pouco, a diretora disse que as manifestações contra o filme, durante o Festival de Brasília de 2011, deveram-se a “setores da esquerda”. O que deixa mal a direita, supostamente mais tolerante em relação a crimes contra a mulher. Mas nem se trata disso. Trata-se de saber se o público tem o direito de conhecer fatos graves (supondo-se que o assassinato de uma mulher seja um fato grave). Ou é mais conveniente omiti-los e abrigá-los debaixo do tapete? Uma boa discussão, sem dúvida.

(Caderno 2)

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