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Eu, se estivesse no lugar do Dunga…

Luiz Zanin Oricchio

11 de maio de 2010 | 09h33

Fazia tempo que uma convocação não era precedida de tanta ansiedade. A esta altura do campeonato, imagine quantos brasileiros estarão pronunciando a frase que dá título à coluna, na espera do momento em que Dunga anunciará os convocados que irão tentar o hexa. Milhões, com certeza.

E, no entanto, não deveria haver tanta expectativa. Afinal, a seleção foi sendo construída aos poucos, venceu a Copa América e a das Confederações, classificou-se em primeiro nas Eliminatórias, ganhou da Argentina. Preencheu (quase) todos os requisitos para se tornar unanimidade nacional, se possível fosse o consenso nessa matéria. Não é. E não é por alguns motivos.

Primeiro, apesar de todo o sucesso (segundo o jargão, futebol é resultado), a seleção de Dunga não convence inteiramente ao público. Por mais que ganhe, não encanta e não empolga. Segundo: existem no momento alguns jogadores que têm fascinado o País, caso mais evidente dos meninos do Santos.

Assim, a pergunta que não quer calar, pelas ruas e botecos, tem sido sempre a mesma: por que não enxergar o óbvio e levar Paulo Henrique Ganso e Neymar, que estão comendo a bola no Santos? Ou será que a mentalidade burocrática, o excesso de prudência, a fidelidade ao grupo fechado devem prevalecer? Junto a esse clamor, algumas dúvidas despontam. Ronaldinho Gaúcho terá nova chance? Por que não levar Diego Tardelli, que está jogando o fino no Atlético Mineiro, em lugar do problemático Adriano? E mais esta, levantada por corintianos insuspeitos: será que existe algum lateral-esquerdo jogando melhor do que o Roberto Carlos?

São válidas as dúvidas, mas é compreensível que o clamor público seja por Neymar e Ganso que, afinal, são a novidade atual do futebol brasileiro. Essa demanda da opinião pública deve ser interpretada. Todos sabem que às vezes um garoto é convocado não para ser titular, mas para ficar na reserva, pegar ambiente e se preparar para a Copa seguinte. Assim, se algum novato for chamado, o será na mesma condição de Ronaldo, antes de se tornar Fenômeno, em 1994. Participou da Copa dos EUA, assistindo, treinando, fazendo parte do grupo. Vampeta conta uma história interessante. Diz ele que um dia perguntou a Parreira por que não colocava Ronaldo para jogar, já que o garoto destruía nos treinos. Parreira disse que, caso o fizesse, iria criar grave problema para si mesmo, pois o menino iria jogar bem, não poderia ser sacado do time e isso o obrigaria a alterar o esquema tático. Quer dizer: para certo tipo de mentalidade, craque é problema. Pelo menos na versão do Vampeta, que faz todo sentido.

O clamor público por Neymar e Ganso exprime, na verdade, o desejo que temos de ver a seleção jogando de outro jeito. Todo mundo gosta de vencer e o time de Dunga tem ganhado seus jogos, não se pode negar. Mas, da seleção, queremos mais. Queremos, e na verdade exigimos, que jogue no ataque, pratique aquele tipo de futebol de toques, dribles e jogadas sinuosas que tanto admiramos. É provável que esse gosto não seja compartilhado pelo treinador, que tem seus próprios critérios, digamos assim, “estéticos”, para o futebol. De qualquer forma, se convocar pelo menos mais um jogador de talento, Dunga terá sinalizado que não é por completo hostil ao estilo brasileiro. E que, num acidente de percurso, talvez possa ignorar seus dogmas e colocar um grão de fantasia naquele time todo certinho e, sinto dizê-lo, tão previsível.

Eu sei que a época é outra, que os personagens são incomparáveis e que o nosso tempo não liga muito para lições do passado. Mas não custa lembrar que, em 1958, a seleção foi à Copa com dois jogadores sobre os quais pairavam dúvidas. Eles entraram apenas no terceiro jogo, para nunca mais sair do time – e da História. Seus nomes? Garrincha e Pelé.

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