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Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios

Luiz Zanin Oricchio

05 de maio de 2012 | 09h00


 

 

 

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios: esse título poético, tirado ipsis literis do romance de Marçal Aquino, dá a Beto Brant e Renato Ciasca a chance de abrir novos caminhos em sua parceria de cineastas.

Em certo sentido, dá seguimento à investigação de Beto Brant sobre as relações amorosas radicais, como em Cão sem Dono, Crime Delicado e O Amor Segundo B. Schianberg. Por outro lado, o triângulo amoroso, cujo vértice principal é a instável e envolvente Lavínia (Camila Pitanga) parece mesmo muito singular. Assimétrico, fecha-se com os outros dois polos da relação, muito diferentes entre si – o pastor Ernani (Zécarlos Machado) e o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado).

O drama – porque se trata de um – dá-se na região amazônica. Mas nenhum dos três a ela pertence. Vieram de outra parte do País, o sudeste. Cauby, por motivos misteriosos, mas pode-se supor seja aventureiro da alma, um ser errante, desses que desejam ver coisas novas, pessoas diferentes, imergir numa cultura alheia. É um fotógrafo. Profissão repórter, poderíamos ajuntar, como a de Jack Nicholson no filme de Michelangelo Antonioni. Um desgarrado de si mesmo, e talvez, como o outro, em busca de nova identidade.

Também de outra parte – e de outras circunstâncias vêm Lavínia e Ernani. Essas serão em parte esclarecidas ao espectador no flash back que surge na metade do filme como um corte seco e súbito, quase brutal, que a princípio desconcerta, mas depois joga luz sobre os personagens. E, como joga luz, convém deixá-lo na sombra, em respeito aos que ainda não viram o filme.

Basta dizer que a Amazônia será palco de um encontro inusitado. As filmagens foram realizadas em parte no Pará, nos arredores de Santarém e Itaituba, às margens do Tapajós, afluente do Amazonas. Lá, encontramos esse personagem talvez romântico e desiludido: Cauby; uma mulher de passado misterioso e temperamento oscilante como as marés: Lavínia; um pastor que destoa do estereótipo em geral associado a esses religiosos: Ernani. Os três, vividos por intérpretes magníficos e entregues por completo aos seus papéis. Uma palavra sobre Ernani: “Não quisemos vincular a figura do pastor Ernani a nenhuma ideia de fanatismo religioso; ele é apenas um idealista”.

Outro personagem é o ambiente, o local, as gentes. A cidade amazônica, na qual Cauby alugou uma ampla casa e onde revela suas fotografias. Palco também das tórridas cenas de amor entre ele e Lavínia. E também dos concorridos sermões de Ernani, das reivindicações dos moradores, da luta pela terra e pela preservação da natureza. Tudo entra na costura do filme de maneira natural. É como se documentário e ficção dialogassem e se entrelaçassem. Um grande e dilacerado caso de amor tendo por pano de fundo um grande e dilacerado país. Alguns figurantes, como Magnólio de Oliveira, no papel de Chico Chagas, são notáveis. Antonio Pitanga, pai de Camila, faz uma pequena e marcante aparição, no papel de superior de Ernani.

Esses personagens são vistos ora de perto, ora mais afastados, para que o contexto se imponha. A câmera “escreve” essa relação. Ora muito próxima aos personagens, em seguida se afasta para abarcar o entorno. Há um fluir suave das imagens, na contracorrente da estética publicitária dominante no cinema brasileiro. O efeito se explica pelo método: “Filmamos sempre em planos sequência (sem cortes), até o final de cada bobina de oito minutos”, explicam Beto Brant e Renato Ciasca, os diretores parceiros. Pergunto se a parceria não coloca muito problemas a eles, mas Beto diz que o costume de trabalhar em equipe torna tudo muito natural. É a segunda parceria entre os dois como diretores (a primeira foi em Cão sem Dono) e a quinta, tendo Beto como cineasta e Renato como produtor. É uma velha amizade e uma antiga colaboração, que torna a “sociedade” autoral algo simples e complementar.

Há que se falar também do surpreendente registro visual do filme. Já se disse que ele em nada se parece como a pouco inspirada estética dominante do cinema brasileiro atual. O que não se disse é que ela se deve ao fotógrafo Lula Araújo, descoberto por Beto depois de ver o longa documental Tamboro, ainda inédito comercialmente, dirigido pelo cineasta Sérgio Bernardes. “É um fluxo de imagens, um mergulho no Brasil absolutamente lisérgico”, elogia Beto. Sérgio Bernardes (1944-2007), autor de Desperato, faz em Tamboro um mergulho vertical no Brasil, através dos seus sons e imagens multifacetados. Pode-se dizer que forneceu não apenas o fotógrafo, mas também uma inspiração a Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios.  “Não gosto muito de falar em influências”, diz Beto, mas no caso não posso negar: fui profundamente influenciado por Tamboro”.

É, portanto, a partir tanto do romance como de sua inspiração cinematográfica, que Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios se constrói como um mergulho radical no Brasil, um país de felicidade e dores extremas, de cores e sombras, de pulsão pelo novo e conservadorismo. País de contrastes – como já escreveu alguém. Para retratá-lo um filme perfeito e certinho não bastaria. Melhor uma pintura imperfeita, mas como imagens tão vívidas que nunca nos saem da memória.

 

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