Eu Matei Sherazade
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Eu Matei Sherazade

Luiz Zanin Oricchio

28 Abril 2011 | 09h46

Uma jornalista estrangeira julgou que fazia um cumprimento a Joumanna Haddad ao dizer que não sabia como ela conseguiu publicar uma revista erótica em sua língua materna. Joumanna, editora da revista Jasad, ofendeu-se. E a coisa piorou quando a estrangeira completou: “No Ocidente não estamos familiarizados com a possibilidade de existirem mulheres árabes liberadas como você”, disse. Joumanna deu uma resposta malcriada, alguma coisa do tipo que não se sentia tão excepcional assim e que a jornalista, na verdade, tinha uma visão preconceituosa sobre o Oriente em geral e sobre a mulher árabe, em particular.

Mas tarde, e um pouco mais calma, a libanesa Joumanna Haddad, nascida em 1970, arrependeu-se da irritação e começou a escrever tentando entender sua reação defensiva. O resultado, depois de vários rascunhos e textos parciais, é o livro Eu Matei Sherazade, que contém o conveniente subtítulo Confissões de uma Árabe Enfurecida.

De fato, não se vê serenidade neste livro que funciona um pouco como tentativa de autocompreensão e outro tanto como desabafo. É um texto enragé e, com suas limitações, não deixa de ser elucidativo sobre a condição da mulher árabe como, da maneira que deseja a autora, uma espécie de convite a que questionemos nossas certezas ocidentais mais arraigadas. Uma delas, com certeza, é ter da mulher árabe a imagem de um rosto coberto por um véu, ou, pior, um corpo escondido por uma burca, submissa ao marido, calada e reprimida. “Não moro numa tenda, não ando de camelo e não pratico a dança do ventre”, avisa.

Ao contar parte de sua própria vida, Joumanna fornece outro retrato à nossa consideração. Ela mesma filha de uma família culta e conservadora, diz que se formou a partir da leitura de livros tirados da ótima biblioteca paterna. O volume que mais a influenciou na adolescência? Nada menos que Justine, os Malefícios da Virtude, do Marquês de Sade, que leu aos 12 anos. Antes, a garota havia atravessado As Ilusões Perdidas e ela mesma se pergunta como não naufragou no imenso abismo existente entre Balzac e o Divino Marquês. Na prateleira libertina do pai colheu ainda Henry Miller e autores árabes, que alternava com Hugo, Nabokov, Flaubert, Sthendal e Proust. Não admira que tanta variedade, dentro da qualidade, tenha forjado um espírito livre.

Ou melhor, um espírito por se libertar, porque Joumanna sabe que a liberdade é um trabalho e muitas vezes se sente como ave a se debater entre grades. Seu espírito voa, mas é consciente de pertencer a uma cultura opressiva à qual não se rende. O relato dessa luta tem muita beleza e encantamento. Poderia mostrar, talvez, um pouco mais de profundidade, qualidade que costuma vir acompanhada a serenidade. Talvez isto fique para depois. Há um tempo para a raiva e outro para a reflexão.