ETV 2022: Cinebiografia de Kurt Vonnegut Jr. é uma das atrações
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ETV 2022: Cinebiografia de Kurt Vonnegut Jr. é uma das atrações

Luiz Zanin Oricchio

04 de abril de 2022 | 11h49

 

Tenho visto muita coisa boa no É Tudo Verdade 2022. Prova de que a curadoria continua tão rigorosa como sempre e selecionando o que há de melhor, ou mais relevante, no cinema documental, no Brasil e no mundo. 

Dito isso, admito que é sempre muito difícil fazer a cobertura de um festival híbrido. Se apresenta muitas vantagens evidentes, o formato híbrido (presencial + online) contempla tal diversidade de horários que deixa a gente meio louca. Ainda mais porque o online tem o tal do “limite de visionamentos”, imposto pelos produtores dos filmes. Ou seja, atingindo tal limite, eles tornam-se indisponíveis. Assim, nunca sabemos se uma obra que recomendamos ao leitor estará disponível ou não. 

“Coisas da vida”, como diria Bill Pilgrim, o herói de Kurt Vonnegut Jr. Aliás, este é um dos títulos que quero indicar: Kurt Vonnegut: Desprendido do Tempo, de Robert B. Weide, Don Argott. Mais do que a cinebiografia de um grande escritor, é testemunho de uma longa amizade entre Weide e Vonnegut, cultivada ao longo de décadas. Dela, emerge a figura bem-humorada e brilhante do autor de Matadouro 5 e outras obras. 

A vida de Vonnegut foi bem confusa. Foi publicitário de G & E durante anos, deixando de lado a verdadeira vocação em troca da estabilidade financeira. Depois de ter o primeiro conto aceito para publicação, a esposa convenceu-o a investir na carreira de escritor. Casado e com três filhos, teve de adotar quatro sobrinhos quando a irmã e o cunhado morreram. As crianças eram travessas. A casa, uma balbúrdia permanente, em meio à qual Vonnegut tentava escrever,  trancafiado em seu quarto. 

O episódio fundamental de sua vida foi durante a 2ª Guerra Mundial. Feito prisioneiro pelos alemães, suportou o terrível bombardeio sobre Dresden, quando a cidade foi inteiramente destruída pelos Aliados. É o material de que se serve para sua obra ficcional. 

Vonnegut tem presença carismática na tela. Parece um tio bondoso, irreverente e espirituoso. Essa imagem sai um pouco arranhada ao sabermos que, depois de se tornar famoso, abandonou a esposa que se encarregara dos sete filhos para que ele desenvolvesse sua vocação, e trocou-a por uma fotógrafa muito mais jovem. 

Coisas da vida, ele diria.

O filme entra no www.etudoverdadeplay.com.br hoje (dia 4), às 17h. 

Há outras atrações. Uma delas, muito dura e instrutiva – Assassinos sem Punição (Reino Unido), de Davis Nicholas Wilkinson. Entre 750 mil a 1 milhão de pessoas se envolveram na matança de milhões de judeus nos campos de concentração nazistas. Foram punidas? A impressão que se tem, pela fama do Tribunal de Nuremberg, é que sim. Engano. Apenas 1% dos assassinos nazistas foram condenados. O resto escapou. Ilesos, ou com penas mínimas. Muitos sumiram do mapa. Outros viveram tranquilamente suas vidas (longas, em geral), usando o próprio nome, em suas cidades natais, sob as vistas de todos. 

O diretor visita os campos de extermínio, Auschwitz em particular. Conversa com advogados, promotores, sobreviventes dos campos, testemunhas. E conclui que, com o fim do conflito mundial e início quase imediato da Guerra Fria, a prioridade dos países vencedores tornou-se outra, barrar o avanço comunista. Por seu conhecimento técnico, muitos criminosos nazistas foram realocados em países que haviam derrotado a Alemanha. Outro motivo é que havia um cansaço da guerra e queria-se partir para a reconstrução de países destroçados. Eram outras prioridades e a justiça foi deixada para trás. Não foi feita. 

De longa duração, o doc vai apresentando prova sobre prova, depoimento sobre depoimento, engrossando de tempos em tempos o dossiê dos criminosos que não foram punidos. Seu nome, responsabilidade criminal durante a guerra, onde viveram, como e quando morreram. O filme deixa a gente pasma. 

Assassinos sem Punição entra às 17h no streaming do Festival. 

Dois brasileiros também passam hoje no online: Quando Falta o Ar (13h), de Ana Petta e Helena Petta; e Pele (21h), de Marcos Pimentel. 

Quando Falta o Ar mostra a luta dos trabalhadores da saúde para atender aos pacientes vítimas da Covid-19 num país em que tudo falta. O total descaso das autoridades sanitárias, somado a questões religiosas, desigualdades sociais e racismo estrutural dão como resultado esse incrível número de 660 mil mortos pela Covid. Boa parte dessas mortes poderia ter sido evitada com um combate consciente à doença. Por isso mesmo, é de pasmar o resultado de uma pesquisa recente, que registra a diminuição do número de brasileiros que responsabilizam o governo federal por má conduta durante a pandemia. 

Quer dizer, esse documentário é mais necessário do que nunca para repor as coisas em seus lugares. Pena que será visto por parcela ínfima de brasileiros. 

O outro doc nacional é Pele, de Marcos Pimentel (21h no online e também no cinema em São Paulo e Rio). Um filme sensorial que se aproveita de grafitis, desenhos e intervenções urbanas em anúncios, frases pintadas em muros, etc para tomar o pulso do sentimento do país. 

É reconfortante ver que, apesar do conformismo aparente de uma maioria, o mal-estar com o Brasil continua a ser gravado nas paredes da cidade. Sob a forma Intervenções gráficas que vão de desenhos elaborados a frases espirituosas, mas não menos contundentes. A ausência de falas é quase total. Pimentel acredita na imagem e aposta no sensorial e na linguagem gráfica dos autores anônimos. E numa trilha sonora perturbadora e estranha. Muito bom. 

 

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