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Estômago: o filme é bom, mas se não fosse o João Miguel…

Luiz Zanin Oricchio

12 de abril de 2008 | 08h56

A primeira coisa a ser dita é que Estômago é um filme que se vê com prazer, interesse e divertimento. Sustenta-se. A avaliação pode ser subjetiva (e qual não é?) Mas parece também amparada em boa administração dos recursos cinematográficos por Marcos Jorge. Sem ser nenhuma página de antologia da arte da filmagem, resolve-se bem e não resvala no “televisivo” ou no “publicitário” – esses dois estigmas que rondam o cinema nacional. Em especial quando é cinema, como parece o caso, pensado e formatado para consumo de grande público.

Mas, em seguida a essa primeira constatação, deve-se abrir espaço para uma segunda, sobre uma certa dissonância que acompanha o filme. Quer dizer, percebe-se como uma dissintonia de projetos, como se o filme quisesse ir para um lado e alguma força o puxasse na direção oposta. Alguém pode dizer que essas fraturas e notas fora da escala são mais virtudes do que defeitos, e é até possível que isso seja verdade. Como dizer, a não ser apelando, mais uma vez, para julgamentos subjetivos?

O fato é que Estômago parece às vezes empenhado em pautar seu estilo pela sutileza e, em outros momentos, dá a impressão de flertar (e namorar abertamente) com o grotesco. E mesmo com o grosseiro. É uma mistura de linguagens ou uma fratura da direção? O espectador decida.

Mas pode-se fazer uma espécie de teste de hipótese mental. Imaginar, por exemplo, o que seria de Estômago sem um ator de tantos recursos quanto João Miguel (de Cinema, Aspirinas e Urubus). João não é apenas ótimo ator. É desses atores capazes de interiorização, de pequenas e grandes sutilezas na maneira de interpretar, hábil para “dizer” muito em poucas palavras e, por vezes, até mesmo sem elas, com uma simples expressão facial. Um ator, digamos, mais “extrovertido”, talvez fizesse de Estômago uma catástrofe kitsch. Mas João trabalha tão bem no meio-de-campo que isso não acontece. Ele, literalmente, salva o filme quando diálogos mais grosseiros tentam levá-lo em outra direção. Com sua delicadeza, também evita, pelo menos em parte, que Estômago insista em clichês preconceituosos sobre migrantes nordestinos, por exemplo.

Dito isso, não se deve deixar sem registro a maneira hábil como a história de Raimundo Nonato (João Miguel) é contada. Ou melhor, como ele a conta, já que sua voz é ouvida do princípio ao fim na narrativa em off. O filme avança em dois tempos, em dois blocos. Num deles, vemos o migrante chegar à cidade grande, faminto e sem um tostão, até avançar na hierarquia gastronômica dos restaurantes. No outro bloco, que sabemos posterior, o acompanhamos na penitenciária, usando seus dons para transformar a gororoba em algo palatável para si e colegas. O que fica pendendo o tempo todo é o mistério: por que o cordial Nonato foi parar atrás das grades? E é esse mistério que vai dando força à história, soprando de leve como brisa na vela do barco.

Por outro lado, é muito agradável ver a alimentação tratada com tanto amor no cinema. Tal como A Festa de Babette, Estômago é uma homenagem do homem a si mesmo, essa nossa espécie que, ao evoluir do cru ao cozido, fez da necessidade básica do sustento físico uma arte e sabedoria milenares. Mas, se não fosse o João Miguel…

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