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Estamos bem mesmo sem você

Luiz Zanin Oricchio

29 Fevereiro 2008 | 19h47

Seria bem difícil dar uma tradução adequada para o título italiano Anche Libero Va Bene. O garoto Tommaso (Alessandro Morace) pratica natação, como quer o pai Renato (Kim Rossi Stuart). Mas o menino quer ser mesmo é jogar futebol. Lá pelo final da história, o pai concorda e pergunta para ele em que posição vai jogar. ‘Meio-de-campo’, diz o menino. O pai suspira: ‘Eu, se jogasse, seria ‘líbero’, acho linda essa posição.’ O menino concorda: ‘Também como líbero está bem.’

A conversa é sobre esportes, mas fala sobre outras coisas bem diferentes. O ‘líbero’, aqui, não é apenas aquele zagueiro que não precisa marcar ninguém e fica na espera, uma invenção do sistema defensivo italiano. É, também, e acima de tudo, o homem livre, a liberdade daquele que não tem ninguém a quem dar satisfações e, por isso mesmo, descobre que existe um preço a pagar pela independência.

Estamos na Itália dos anos 2000, em que as grandes causas parecem coisa do passado e por isso os cineastas investem sua energia, cada vez mais, no exame das famílias problemáticas – mães instáveis, pais enfraquecidos, crianças sem rumo. O que acontece? Renato é um operador de câmera que cria sozinho um casal de filhos. A mãe os abandonou, digamos assim, porque não consegue se conformar com a rotina sexual do matrimônio.

Há uma tensão que passa pela história. Renato é um pai à beira de um ataque de nervos. Abandonado pela mulher, enfrenta o desafio de criar os filhos e ainda passa por dificuldades econômicas. As crianças também vivem tensas, pelas exigências da escola, pelo próprio nervosismo do pai, pela ausência da mãe. E as coisas só pioram quando ela tenta, mais uma vez, a reconciliação. Stefania (Barbora Bobulova) é mesmo uma criança crescida que, na volta, se esforça para recompensar os filhos pela ausência e só faz piorar as coisas.

O filme é a estréia na direção de Kim Rossi Stuart, ótimo ator que vimos por aqui no belo trabalho de Gianni Amelio, As Chaves de Casa. Nesse filme, Stuart é pai de um garoto deficiente, pai ausente que depois se assume como responsável e tenta ocupar seu lugar na vida do garoto. Quando Stuart escolhe um tema para estrear na direção, é a si mesmo que designa o papel desse outro pai, de novo em posição um tanto deslocada em relação aos filhos, embora seja o provedor da casa. É a maneira de retrabalhar essa questão paterna, tão em evidência que já andou preocupando até os psicanalistas.

Com a função paterna em declínio, o que podem fazer as crianças para se equilibrar? É a pergunta de Tommazo, que se exercita pelas beiradas do telhado do prédio. Brincadeira de risco, que parece um ensaio para a vida. Vida de ‘líbero’.

(Caderno 2, 29/2/08)