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Esporte e política

Luiz Zanin Oricchio

06 de outubro de 2009 | 09h19

Durante o governo militar a esquerda recomendava torcer contra a seleção porque uma eventual vitória serviria de propaganda ao regime. O Brasil venceu a Copa de 1970 e não conheço militante que tenha torcido contra, ao menos para valer. A ditadura tentou utilizar politicamente a conquista, como faz qualquer regime do mundo. Hitler via na Olimpíada de 1936 uma maneira de afirmar a superioridade ariana e o negro Jesse Owens humilhou a teoria racista em pleno estádio de Berlim. Na Copa de 1934, Mussolini entoou a palavra de ordem famosa – Vincere o Morire! Vencer ou Morrer – para a Squadra Azzurra, que, para sua sorte, venceu. No Brasil, as conquistas de 1958 e 1962 foram utilizadas politicamente por presidentes eleitos pelo voto – Juscelino e Jango. Sempre que o Brasil competiu e venceu, o governo da ocasião deu um jeito de surfar na onda positiva, fosse o período de Itamar Franco em 1994, ou o de FHC em 2002.

Não consta que nada disso tenha alterado o curso da História. Mussolini e Hitler perderam a guerra e a vida. JK foi cassado e entrou para a galeria dos grandes presidentes. Jango foi derrubado por um golpe de Estado e os governos militares que o sucederam estão devidamente arquivados na anacrônica estante das ditaduras latino-americanas. Itamar, FHC e Lula ainda devem esperar pelo julgamento da posteridade. O esporte faz parte da vida dos povos, os acontecimentos seguem seu ritmo próprio e os homens passam, deixando boas ou más lembranças. Tudo é passageiro e tudo vira História.

Por isso deveríamos evitar vinculação muito estreita entre os fatos do esporte e os homens que, temporariamente, ocupam cargos de poder. A Olimpíada no Rio não pertence a Lula e deveria ser saudada mesmo por anti-lulistas empedernidos. É maior do que Carlos Arthur Nuzman, assim como a seleção é maior que Ricardo Teixeira. Os homens não são donos das instituições. Eles apenas as servem, e por um período limitado, embora, para nossa pequena percepção humana, alguns desses períodos pareçam longos demais. Sempre terminam, cedo ou tarde.

Muito mais duradouro é o efeito desses eventos sobre a psicologia dos povos. Não tenho ideia da ferida que representou a derrota ariana para Owens na cabeça do alemão médio da época. Ou do possível efeito de solidificação do fascismo com a vitória da Azzurra em 1934. Mas sei dos efeitos benéficos das vitórias brasileiras em eventos esportivos, e em especial nas Copas do Mundo, mais significativos ainda para um povo em litígio constante com sua autoestima, como é nosso caso.

Desse modo, acho altamente positiva para o País a realização de grandes eventos esportivos como a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Afaga o nosso ego e é afirmação simbólica, em plano internacional, de um país cuja presença econômica vem crescendo. Deveríamos todos ficar felizes com isso, ou não? Mas, e a corrupção?, já posso ouvir. Ora, se formos esperar que a corrupção acabe para fazer alguma coisa, é melhor nem sairmos da cama de manhã cedo. A corrupção existe e deve ser combatida no dia a dia. Afinal, existem instrumentos para isso e uma das mais nobres funções da imprensa livre é fiscalizar os poderes, sejam de que partido forem. Vamos curtir a boa-nova, e cumprir nosso dever, com zelo e sem derrotismo.

E A BOLA?

Fui à Vila e vi um Santos bem articulado, envolvente e sabendo dosar jogo de conjunto com grandes atuações individuais. Me refiro, claro, ao Santos feminino, de Marta e Cristiane, na vitória por 3 a 1 sobre o White Star, pela Libertadores. Sobre o outro, melhor calar.

(Coluna Boleiros, 6/10/09)

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