Escrita Íntima: diário amoroso de um casal de artistas
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Escrita Íntima: diário amoroso de um casal de artistas

Luiz Zanin Oricchio

13 de junho de 2022 | 19h19

Filmes como Escrita Íntima, do português João Mário Grilo, costumam passar batidos pelo circuito e pouca atenção recebem da imprensa. É pena que isso aconteça. Certo, não se trata de nenhum Top Gun da vida, mas é obra para acalentar sensibilidades (caso existam) em época tão bruta e medíocre. 

O filme refere-se à vida conjugal dos artistas plásticos Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, vista através de sua correspondência entre 1932-1961. A portuguesa Vieira da Silva e o húngaro Arpad trocaram tantas cartas por viverem longos períodos separados. Ele às vezes na Hungria, ela em Portugal. Ou ela nos Estados Unidos, ele na França. Ou ele no Brasil, onde viveram juntos por sete anos, e ela já de volta à querida Paris, sua cidade de adoção. 

As cartas vão sendo lidas, e há trechos de filme de uma entrevista com ambos, já concedida quando estavam idosos. As obras são mostradas. E, para quem não as conhece, parecem poderosas – sobretudo as de Vieira da Silva, jorros de imaginação que tangenciam o surrealismo. 

O deles é um caso de amor muito bonito, de duas pessoas que permaneceram casadas muitos anos, não tiveram filhos para se entregarem à sua arte e encontraram tempo para se dedicar um ao outro. Sem contradizer a liberdade de movimentos de cada qual, como seres individuais, que é a forma melhor de criar e viver. 

O casal veio dar no Brasil por força da Segunda Guerra. Com o começo do conflito, deixaram a França e mudaram-se para Portugal, país neutro. Mas acreditavam que os nazistas chegariam até lá, pondo em perigo a vida de Arpad, judeu. Tomaram um navio para o Brasil e permaneceram no Rio sete anos, de 1940 a 1947. Sofreram com o calor e foram morar em Santa Tereza, bairro mais fresco e com vista panorâmica para a cidade e a baía. 

Com sua presença, o casal marcou o panorama nacional das artes, conforme atestam os estudiosos Paulo Herkenhoff e Frederico Morais. Assim que pôde, ela voltou à Europa na 3a classe de um navio. Ele permaneceu mais um tempo no Rio e a seguiu logo depois. 

O filme é simples, bonito e comovente na dedicação mútua desses grandes artistas, como transparece em suas cartas, repletas de saudade e carinho. O mundo não é só isso que se vê, é um pouco mais, como diz – sabiamente – a letra do samba. 

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