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Escrever e pensar sob o regime de Fidel

Luiz Zanin Oricchio

01 de junho de 2009 | 11h27

A revolução de 1959 convulsionou também os meios intelectuais em Cuba e no mundo todo. Despertou enorme esperança de que naquela pequena ilha caribenha estaria o laboratório do homem novo, de um socialismo inventivo e libertário. Cedo, porém, se notou que o idílio entre governo e intelectuais e artistas locais não seria muito duradouro. Passada a lua de mel, o comando da revolução, através dos seus órgãos culturais, passou a intervir no processo de publicação e no debate de ideias. Em Os Intelectuais Cubanos e a Política Cultural da Revolução (Alameda, 302 páginas, R$ 42), a historiadora Sílvia Cezar Miskulin discute esse relacionamento complicado através de dois estudos de caso – o da editora El Puente e do suplemento cultural El Caimán Barbudo. A editora reunia muitos intelectuais negros, homossexuais, mulheres e jovens de baixa renda. Foi fechado em 1965 e, segundo a autora, deixou grande vazio na vida cultural cubana. Já El Caimán Barbudo, criado em 1966, circula até hoje, tendo atravessado diversas fases e polêmicas. Nessa história conturbada, aparecem os nomes de intelectuais como Reynaldo Arenas, Silvia Barros, Cabrera Infante, Jésuz Díaz, e Heberto Padilla, que sofreram na pele a incompatibilidade entre suas ideias e o regime, e foram forçados ao exílio. A seguir, trechos da entrevista concedida por Sílvia Miskulin ao Estado.

Como se deram os primeiros sinais de que a liberdade de expressão não seria ilimitada sob o novo regime?

No ano de 1961, diversos acontecimentos marcaram a conformação de uma política cultural oficial. O discurso de Fidel Castro, Palavras aos Intelectuais, estabeleceu os limites das manifestações intelectuais e artísticas em Cuba. A apreensão do documentário PM, de Sabá Cabrera Infante, e o fechamento do suplemento cultural Lunes de Revolución, dirigido pelo escritor Guillermo Cabrera Infante, nesse mesmo ano, foram os primeiros atos de censura do novo regime cubano no meio cultural.

Como se pode comparar a liberdade de expressão no período de Fulgêncio Batista e após a revolução?

No período da ditadura de Batista, de 1952 a 1958, havia censuras e restrições à liberdade de expressão e criação em Cuba. Muitos intelectuais exilaram-se durante esse período. Antes da revolução quase não havia incentivo estatal às manifestações culturais. Após o triunfo da revolução, muitos escritores e artistas que estavam fora voltaram e iniciou-se um período de grande efervescência no meio cultural e artístico. Surgiram várias instituições, publicações e editoras, dando espaço para a expressão e criação dos intelectuais.

Como você interpreta o fechamento da editora El Puente?

A editora foi organizada pelos escritores José Mario Rodriguez e Ana Maria Simo de forma independente do governo. Publicava obras de jovens escritores, alguns eram livros engajados e comprometidos, outros expressavam questões, dramas e angústias existenciais de seus autores e não se relacionavam com os acontecimentos da revolução. A publicação de uma antologia em 1962, com poesias de escritoras que haviam acabado de se exilar, foi motivo de polêmicas. A editora passou a ser controlada pela União Nacional de Escritores e Artistas Cubanos, mas continuou seu trabalho até 1965, quando foi fechada e os livros confiscados. Pouco depois, os editores foram presos. José Mario foi internado oito meses nas UMAPS (Unidades Militares de Apoio à Produção), no momento em que se acirrava a perseguição aos homossexuais e jovens de “conduta imprópria”. O Partido Comunista Cubano foi fundado em 1965, fruto de um processo de centralização política de várias organizações que haviam apoiado a revolução. A centralização também cresceu no âmbito cultural e não havia mais espaço para uma editora independente como El Puente.

Já o caso de El Caimán Barbudo parece um pouco ambíguo. Na primeira fase do suplemento havia a tentativa de manter certa liberdade de expressão mesmo a preço de um alinhamento com a revolução.

Entre 1966 e 1967, o suplemento foi dirigido pelo escritor Jesús Díaz e contou com um grupo coeso de colaboradores. O nome da publicação manifestava seu apoio à revolução, pois era referência direta à Cuba revolucionária. Caimán é um jacaré, a cuja forma a ilha de Cuba se assemelha. Já os barbudos eram os guerrilheiros e revolucionários. Era o suplemento cultural do jornal Juventud Rebelde, da juventude do Partido Comunista. Apesar do caráter oficial, na primeira época gozou de liberdade de publicação, assumindo ao mesmo tempo postura engajada e também dando espaço para experimentações e novas linguagens.

Parece que esse equilíbrio teria sido rompido com a publicação da resenha de Heberto Padilla do livro Pasión de Urbino, de Lisandro Otero, e das referências a Cabrera Infante…

A publicação da resenha e elogios ao livro de Cabrera Infante, Três Tristes Tigres, ganhador do concurso Biblioteca Breve, na Espanha, foram a gota d?água para o desligamento de Jesús Díaz e de sua equipe. Padilla ousava elogiar um escritor cubano exilado, como era o caso de Cabrera Infante, que saiu em 1965 após o fechamento de Lunes de Revolución. Jesús Díaz publicou a resenha de Padilla junto com uma declaração que esclarecia como a direção do suplemento não compartilhava de suas opiniões. No entanto, este nota da redação não foi suficiente para conter a polêmica e mantê-lo na direção de El Caimán Barbudo.

Em que consistiria a diferença básica da primeira para a segunda fase do periódico?

Ela vai de abril de 1966 a novembro de 1967, sob direção de Jesús Díaz. Nesta época, o suplemento era mais aberto, dava espaço tanto para temas literários, culturais, como para matérias políticas e até publicava artigos e charges polêmicas. Já na segunda época da publicação, durante o período de 1968 a 1975, limitou bem mais a variedade de temas. Evitou publicar debates e artigos mais teóricos, que foram considerados inapropriados pela direção da União de Jovens Comunistas.

Embora seu livro seja sobre escritores, faz menção também ao Instituto Cubano do Cinema (Icaic) e à questão da liberdade de expressão no cinema. A Morte de Um Burocrata, de Tomás Gutiérrez Alea, é um filme crítico à burocracia cubana…

Esse filme estreou em 1966 e trazia uma crítica ao excesso de burocracia. A trama se desenrolava a partir dos inúmeros percalços vividos por Joaquín, que precisava desenterrar seu tio, o operário exemplar Francisco Pérez, para recuperar sua carteira de trabalho. Alea conseguiu fazer uma sátira da situação em Cuba por meio da loucura de Joaquín, que chegou a desenterrar o defunto por sua conta e depois não conseguiu enterrá-lo novamente. O personagem principal acabou preso em um hospital psiquiátrico, algo que também aconteceu com muitos intelectuais e pessoas consideradas “perturbadoras” pelo governo nos anos 60 e 70. O filme fez muito sucesso entre o público cubano, foi a maior bilheteria do ano de 1966 e ainda recebeu prêmios fora do país. A imensa popularidade evitou que o filme fosse censurado e foi exibido também na televisão cubana tempo depois.

Alea também adaptou Memórias do Subdesenvolvimento, este do livro de Edmundo Desnoes. Desnoes, que vive nos EUA, afirmou que, no começo da revolução, havia liberdade de expressão em Cuba, o que depois mudou. Como você comentaria essa afirmação?

Em Memórias do Subdesenvolvimento, de 1968, Tomás Gutiérrez Alea mostrou as contradições dos primeiros anos após o triunfo da Revolução por meio do personagem Sergio, intelectual que observava toda sua família e amigos partirem para os EUA, mas resolve ficar. Sergio presenciou com certo distanciamento momentos cruciais, como a tentativa de invasão à Playa Girón por exilados cubanos a partir dos Estados Unidos, em 1961, e a crise dos mísseis, em 1962. O filme remete ainda ao debate de Cuba ter ou não condições de superar seu subdesenvolvimento e tornou-se um clássico do cinema latino-americano. A afirmação de que no início da revolução havia liberdade de expressão em Cuba comprova-se com a publicação do livro em 1965 e a realização do filme. Mas, no mesmo período, muitas outras obras e publicações eram censuradas, como observei em pesquisas.

Você acha que essas limitações foram se encaminhando para a aceitação do realismo socialista como norma estética?

Nos anos 70, sobretudo após as deliberações do 1º Congresso Nacional de Educação e Cultura, em 1971, o realismo socialista impôs-se como parâmetro para as manifestações culturais e artísticas. As obras literárias deveriam ser didáticas, acessíveis à maioria da população e de preferência relacionadas a temas da revolução cubana. As obras de arte teriam ainda que ser um reflexo da realidade e demonstrar otimismo com o desenvolvimento do socialismo em Cuba.

Em que medida a chamada “Guerra Fria Cultural” influenciou no andamento dessas questões?

De fato, a guerra fria foi travada também no campo da cultura. Cuba enfrentava os Estados Unidos ao fazer parte do bloco soviético e a disputa era tão acirrada, não só do ponto de vista político, mas também ideológico. As publicações e manifestações culturais em Cuba abriam espaços para questionamentos da política imperialista do governo estadunidense. As obras e publicações financiadas por organismos dos EUA foram acusadas de contrarrevolucionárias e proibidas de circularem na ilha.

Em que medida a política cultural foi se fazendo ao sabor das vicissitudes políticas da ilha: tentativa de invasão da Baia dos Porcos, alinhamento com a URSS, etc.

As grandes encruzilhadas políticas por que passaram os cubanos em vários momentos da Revolução relacionaram-se claramente com algumas mudanças e diretrizes no meio cultural. O maior alinhamento de Cuba com a União Soviética nos anos 70 e a entrada da ilha no bloco econômico e político composto pelos soviéticos e países do Leste Europeu acarretou maior controle das produções intelectuais e uma política cultural afinada com esse momento, que se aproximou muito do realismo socialista.

Julio Cortázar disse que El Caimán Barbudo tinha dificuldade de aceitar que contos de natureza fantástica pudessem ter conteúdo social. Escreveu Alguién Que Anda por Ai justamente para prová-lo e o mandou para ser publicado. Por algum ato falho, seus amigos cubanos jamais lhe mandaram um exemplar do suplemento, com o conto publicado. A história se passa no início dos anos 70.

Na primeira fase do Caimán, Cortázar foi entrevistado pelo suplemento e sua entrevista saiu com o título Cortázar Um Cronopio Que Toca Trompete, no número 11, em fevereiro de 1967. Na entrevista, Cortázar defendeu sua preocupação com a forma ao criar suas obras literárias. Já na segunda fase, Caimán publicou no apêndice do número 38, em abril de 1970, o artigo Literatura en la Revolución y Revolución en la Literatura sobre o boom do romance latino-americano. O artigo havia saído anteriormente na revista uruguaia Marcha, em janeiro de 1970. Não sabemos ao certo quando foi publicado o conto Alguién Que Anda por Ai, mas as restrições à literatura de natureza fantástica foram maiores nos anos 70, período de maior fechamento e que ficou conhecido como “anos cinzas”.

Como vê a situação cultural em Cuba nos anos 80?

A saída de centenas de milhares de cubanos, no episódio conhecido como “êxodo de Mariel”, explicitou as frustrações de parte da população. Muitos intelectuais e artistas saíram também, buscando melhores condições de trabalho. Em meados dos anos 80, surgiram artistas e intelectuais que buscavam novos espaços e formas de expressão. Escritores que estavam censurados começam aos poucos a ser reeditados na ilha.

Houve alteração perceptível desde o fim da União Soviética em 1991, com a consequente parada da ajuda a Cuba, o período especial, etc.?

Foi um momento de grande dificuldade. O governo buscou investimentos estrangeiros, sobretudo no turismo. A entrada de capital e empresas estrangeiras e a legalização do dólar geraram uma situação de dupla economia, os produtos racionados em pesos cubanos e os produtos estrangeiros em pesos conversíveis. O mercado negro proliferou e muitos cubanos passaram a realizar atividades paralelas para sobreviver. Escritores e artistas buscam construir espaços alternativos às publicações e instituições oficiais, por meio de revistas independentes, blogs e sites. Mas a liberdade de expressão é limitada pelo governo, que controla o acesso à internet, a imprensa, a entrada de publicações estrangeiras e autorização ou veto a viagens internacionais de intelectuais.

Com Raúl no comando, houve alguma alteração? O que a era Obama pode significar para Cuba?

Raúl Castro fez pequenas alterações, como permitir a compra de celulares, aparelhos de DVD e computadores, mas ainda não houve mudanças significativas quanto ao fim das restrições à internet e viagens internacionais. O comando político está nas mãos do Partido Comunista, que continua o único permitido. A mudança de governo nos EUA abriu grande expectativa de transformações nas relações entre os dois países. Espera-se que Obama anuncie o fim do embargo econômico, que vigora desde 1962, mas até o momento houve somente flexibilizações das viagens de cubano-americanos para Cuba.

(Caderno 2, 30/5/09)

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