Erlon Chaves, um caso de racismo à brasileira
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Erlon Chaves, um caso de racismo à brasileira

Documentário que passa hoje às 22h30 no Canal Curta! lembra o músico extraordinário, vítima de violência racista na época da ditadura

Luiz Zanin Oricchio

19 Novembro 2018 | 20h18

Os mais “experientes” vão lembrar: décadas atrás, o nome de Erlon Chaves era conhecidíssimo do povo brasileiro. Talentoso, precoce, versátil, era arranjador, compositor, maestro, autor de trilhas sonoras de filmes e novelas. Vivia na TV, sendo até jurado em programa de calouros. Deixou sua marca em inúmeras composições, mas também na roupagem criativa que criou para canções alheias. Tudo isso está no bom documentário Erlon Chaves, o Maestro do Veneno, de Alessandro Gamo, que o Canal Curta! exibe nesta segunda-feira, às 22h30.

Como cantor, Erlon fez uma apresentação de grande sucesso, no Maracanãzinho (lotado), num dos Festivais Internacionais da Canção (FIC), interpretando Eu Também Quero Mocotó, de Jorge Ben (hoje Benjor). A galera foi ao delírio e não se falou em outra coisa nos dias seguintes, o que transformou a canção em autêntico sucesso popular. Acontece que o êxito trouxe também muitas dores de cabeça ao intérprete.

Na apresentação havia uma performance com muitas garotas (a maioria loiras) no palco. No final, elas beijavam o cantor na boca. Um selinho, uma bitoca. Mas o suficiente para enfurecer os ânimos moralistas da ditadura militar – era 1970 e vivia-se sob o ditador Emilio Garrastazu Médici. Erlon foi “convidado” a depor no Dops, em companhia do produtor José Bonifácio de Oliveira, o Boni, então todo-poderoso funcionário da Globo. Boni foi logo mandado para casa enquanto Erlon permaneceria do distrito mais tempo para “dar explicações” aos agentes.

Tornou-se persona non grata do regime e muita gente o renegou. O jornal, dono da rede onde ele trabalhava, publicou editorial de primeira página onde criticava o show por “mau gosto” e lamentava a quebra de confiança do músico com a emissora. Sustenta que aquilo não fazia parte do show. Boni desmente, dizendo que tudo havia sido ensaiado.

Em outra ocasião, policiais sequestraram Erlon Chaves e o mantiveram em cativeiro, incomunicável durante alguns dias. Não o torturaram. Pelo menos fisicamente. Mas o ameaçaram e insultaram, chamando-o de “crioulo filho da p., folgado”, pelo fato de ter beijado mulheres loiras no palco. Onde já se viu? Erlon era tão “folgado” que havia namorado ninguém menos que a sex symbol da época, a incrível Vera Fischer. Dizem os amigos que, depois dessa prensa dos meganhas, ele nunca mais foi o mesmo.

Bem, para quem não viveu esse período histórico – mas começa agora a ter ideia agora do que foi -, aquele era um tempo sem lei, em que desafetos dos poderosos podiam ser sequestrados e eventualmente sumir, sem que ninguém precisasse prestar contas a ninguém. Se lei havia, era a lei da selva. Por sorte esses brucutus voltaram para suas cavernas, de onde agora ameaçam retornar para o convívio, digamos assim, civilizado.

Enquanto isso a arte de Erlon Chaves permanece. Muita gente boa é entrevistada no filme para falar desse músico incrível: Zuza Homem de Mello, Raul do Trombone, Alaíde Costa, Roberto Menescal, Eliane Pittman, Laércio de Freitas, Márcia, Adilson Godoy, entre outros. Bons depoimentos, consistentes, entremeados de muitos números musicais que comprovam a qualidade desse talento brasileiro.

Erlon Chaves morreu em 14 de novembro de 1974, de um infarto fulminante. Tinha apenas 40 anos.