‘Era uma Vez em Tóquio’, o filme da delicadeza perdida
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‘Era uma Vez em Tóquio’, o filme da delicadeza perdida

Luiz Zanin Oricchio

17 de fevereiro de 2014 | 09h39

Se estamos precisando de um filme é deste que entrou sexta-feira em cartaz. Como todo clássico, Era uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu (1903-1963), pode suportar várias definições, sem se prender a nenhuma delas. Muitos o chamam de meditação sobre o tempo ou a velhice. Poderíamos chamá-lo também de reflexão sobre a delicadeza perdida, e então caberia muito bem no Brasil de hoje, como coube no Japão de 1953, quando foi lançado.

Deve-se dizer, antes de prosseguir, que Era uma Vez em Tóquio ganhou uma refilmagem de Yoji Yamada chamada Uma Família em Tóquio (2013). Os dois filmes estão em cartaz na mesma sala, o CineSesc, e podem ser vistos em sequência. Yamada é extremamente respeitoso com seu mestre Ozu. Modifica pequenos detalhes, coloca algumas relações humanas em perspectiva contemporânea, mas a substância está lá.

E que substância? Bem, a primeira coisa a dizer é que Ozu parece filmar com o próprio material de que é feita a vida. O cotidiano. O dia a dia pequeno de todos nós, os fatos que vão sendo trançados e parecem só ter importância para nós mesmos, ou, talvez, para nossa pequena família, essa instituição misteriosa a cada vez que a olhamos de perto. Outra das vertentes que podem ser abertas pelo trabalho de Ozu é justamente a questão: o que é uma família? Veremos por quê.

As primeiras cenas são de um cotidiano absoluto, de uma banalidade completa. Um casal de idosos (Chishu Ryu e Chieko Higashiyama) sai de Onomichi, cidadezinha à beira-mar onde vive, e toma o trem para visitar os filhos em Tóquio. Os primeiros diálogos são a respeito um travesseiro inflável que será usado na viagem e está perdido. Ou parece estar, até que o senhor Shukishi (Ryu) o encontra em sua bagagem. Temos aí uma pequena cena do cotidiano. O velho casal, no qual a ternura da convivência de tantos anos se mistura a certa birra recíproca, uma acomodação de relação provocada justamente por essa convivência longa.

Depois há o encontro com os filhos e os netos em Tóquio. Encontro falhado. Há o filho médico, assoberbado com sua clientela de bairro. Há a filha, dona de um salão de beleza e ela também absorvida pelo trabalho. Há os netos desinteressados da presença dos avós. E há a nora, Noriko (Setsuko Hara), viúva de outro filho do casal, morto na guerra. Como as outras mulheres jovens da história, Noriko também trabalha fora para viver.

Bem, estamos no Japão dos anos posteriores à derrota da guerra. Há em curso um processo acelerado de ocidentalização. Antigos costumes convivem com novos, e de forma assimétrica. A devoção pelos pais continua presente, sem dúvida. Mas deve atender às conveniências de uma sociedade em rápida transformação, na qual tempo é dinheiro. Simplesmente os filhos não têm disponibilidade e nem cabeça para se dedicarem aos pais velhos como fizeram gerações anteriores. Nunca é dito desta forma direta, mas os velhos são um estorvo e a viagem dos dois a Tóquio coloca a vida dos filhos de pernas para o ar.

Por isso mesmo lhes ocorre pagar alguns dias de hotel aos velhos numa estação termal próxima. Sai caro, mas pelo menos ficam livres. Ou pensam que ficarão, pois, depois de uma noite no hotel, os velhos resolvem voltar a Tóquio para desolação dos filhos.

A exceção é Noriko, que os trata com toda atenção e gentileza. Não vemos seus atos como mera formalidade. Parece de fato interessada no bem-estar dos sogros. Uma das cenas mais ternas de toda a história se dá quando a velha passa a noite na casa da nora e ambas mantêm um diálogo íntimo de mulheres. Noriko faz parte da família? Casou-se com o filho e este morreu na guerra. Ela se mantém na família? Ou está fora e por isso trata os velhos com uma cerimônia que os filhos dispensam? De qualquer forma, ela é quem trata melhor o casal, dá-lhe afeto e parece sinceramente devotada aos dois.

Há um subtema talvez aqui, e que não escapa a um diretor simples apenas em aparência como Ozu. Noriko é quase como a bondade em seu estado puro, embora ela mesma o negue, e diga que tem tantos defeitos como os outros, etc. Mas mesmo essa desambição de parecer boa talvez a torne ainda melhor. Está claro que ela tem suas falhas, como todos, mas em essência é boa e quer o melhor para os outros. Pode ser que a bondade seja um dom, como a capacidade de aprender rapidamente uma língua estrangeira ou dominar um instrumento musical. Poucos têm esse dom. A maior parte é movida por interesses egoístas e relaciona-se com os outros usando a tênue civilidade que serve como amortecedor social. Noriko, embora não idealizada nem pelo diretor e nem por ela mesma, é um desses seres de exceção, que conseguem pensar de fato nos outros. Essas pessoas se tornaram cada vez mais raras e, a cada vez que encontramos uma delas, não evitamos certa desconfiança. “Qual é a sua segunda intenção?”, nos perguntamos.

Talvez seja isso, a bondade como algo raro e inato. Ou a bondade como conquista, como preferia Roberto Rossellini. Para o grande mestre italiano, autor de obras tão fundamentais como Roma Cidade Aberta, Paisà e Viagem à Itália, ser cineasta não era nada. “O difícil é tornar-se um homem”, ele dizia. O trabalho imenso proposto pelo humanismo diante da sociedade do egoísmo cego. Tarefa para toda uma vida, diante da qual ser um grande diretor era fichinha, brincadeira de criança.

À sua maneira sutilíssima, Ozu revela essa fratura do cotidiano, essa rachadura sempre denegada nas relações sociais e familiares e que só se tem aprofundado desde então. A bondade de Noriko apenas a põe em relevo. E, no entanto, visto a contrapelo, Era uma Vez em Tóquio não parece exatamente um relato de desalento. Em sua depuração visual mais completa – a câmera baixa, a distância respeitosa dos personagens, etc – aponta mais para um caminho de ascese que de descrença. Temos de vê-lo pelo revés, como se faz com o desenho de algumas tapeçarias.

Em seu extraordinário livro, O Anticinema de Yasujiro Ozu (Cosac & Naify/Mostra, 2003), o cineasta japonês Kiju Yoshida fala em percurso de “iluminação” a propósito de Era uma Vez em Tóquio. Esse filme não trata de mero comentário social, embora o contenha. Não discute a bondade material, mas a possibilidade do bem em meio ao caos. Fala da relação entre as pessoas vivas, mas também entre elas e seus mortos. E dissolve-se numa cena final magnífica, que olha para a eternidade. Dessa meditação emerge a serena emoção que experimentamos ao longo do seu percurso, cujo desfecho se assemelha a uma revelação que dificilmente pode ser descrita em palavras. Aliás, no túmulo de Yasujiro Ozu não há sequer o seu nome. Apenas o ideograma “Mu”, que significa o nada, ou o vazio.

Ninguém que tenha visto este filme negará à arte a capacidade de nos tornar um pouco melhores do que somos.

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