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Era uma Vez: duas opiniões

Luiz Zanin Oricchio

25 de julho de 2008 | 17h15

Eu e meu colega Luiz Carlos Merten discordamos sobre Era uma Vez, novo filme de Breno Silveira (de 2 Filhos de Francisco). A minha opinião está transcrita abaixo. A do Merten, você pode ler aqui. Veja o filme e tire suas próprias conclusões.

Em seu segundo longa, Breno Silveira, autor do enorme sucesso 2 Filhos de Francisco (mais de 5 milhões de espectadores), tenta a sorte num filão de certa forma já tradicional do cinema brasileiro – a questão do abismo de classes sociais e seus efeitos sobre a sociedade e as pessoas. Refinando o foco: este Era uma Vez…, com o tom fabular indicado pelo título, centra atenção na famosa dialética entre morro e asfalto no contexto carioca. Esse é um dos, digamos assim, logotipos mais incisivos da tensão social brasileira. A favela que confina com a riqueza, justo no cartão-postal da mais famosa cidade brasileira, a caixa de ressonância do País, como os cariocas gostam de dizer.

No caso, Breno se vale de outra das situações clássicas da tensão morro-cidade: a menina rica, do asfalto, que ama o moço pobre, do morro. Uma espécie de Pobre Menina Rica dos tempos atuais – evidentemente com menos poesia e mais violência do que no tempo em que Vinicius de Moraes concebeu a história, musicada por Carlinhos Lyra. A menina rica é Nina (Vitória Frate), que mora de frente para o mar na Vieira Souto. O moço pobre, Dé (Thiago Martins), é um vendedor de cachorro-quente no quiosque em frente do apartamento de Nina e morador no Morro do Cantagalo. Dé tem um irmão, Carlão (Rocco Pitanga), que se mete sem querer numa fria e muda de trajetória de vida – e não para melhor.

Os ingredientes estão dados – paixão entre diferentes sociais, tráfico, violência, e circunstâncias, todas de origem social ou familiar, que tornam impossível a vida do par central. Então aparece a outra referência do projeto, que o relaciona a Romeu e Julieta, os amantes infelizes de Verona, um protótipo universal do amor frustrado por causas externas.

Tudo o que se leu acima é o desenho mínimo do filme, a sua carta de intenções, a planta baixa, por assim dizer. Na realização, Era uma Vez… opta por um caminho didático, de dramaturgia bastante óbvia. Por exemplo, é notório que a ”postura” do filme se inspira no livro de Zuenir Ventura, Cidade Partida. A tese de Zuenir, de elementar bom senso, é que não há solução para o Rio (leia-se: para o Brasil), enquanto for mantida essa cisão radical entre os extremos sociais. Ok, mas para assumir essa tese e demonstrá-la não era preciso colocar o livro na mão de um personagem e fazê-lo comentar com outro. Este é apenas um pequeno exemplo, que não teria importância como caso isolado, mas indica uma tendência geral da obra. Esta é indicativa, reiterativa, sem espaço para o lacunar ou para a reflexão. Acredita pouquíssimo na capacidade do espectador de ler entre as linhas e tirar as próprias conclusões. É indutivo.

E, para provar sua tese, mobiliza o arsenal de costume no cinema comercial que se deseja socialmente engajado: situações emotivas ”para comover”, música de fundo onipresente, que visa a aumentar o grau de envolvimento do espectador (sem se dar conta de que pode afastá-lo), e assim por diante. Diante de uma situação ”dura”, como a descrita, Era Uma Vez… propõe uma linguagem cinematográfica adocicada – o que anula a contundência da contradição exposta. Em termos da carreira de Breno Silveira, é um passo atrás em relação a 2 Filhos de Francisco. Neste, Breno conseguiu sucesso de público ao retratar a trajetória de vida de dois artistas populares com grande sentido de despojamento – de tal forma que, mesmo quem não suporta a música de Zezé Di Camargo e Luciano, acabou curtindo o filme. Mas ao encenar esse Romeu & Julieta social, o diretor cai na armadilha que tem derrubado boa parte da produção nacional contemporânea: tenta adivinhar de saída o gosto de um público insondável e enche a história de penduricalhos, clichês e concessões melodramáticas para aproximar-se do suposto gosto do espectador médio. Falta a Era Uma Vez… contenção, senso de síntese e gume crítico para se tornar um bom filme. Pena.

(Caderno 2, 25/7/08)

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