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Entrevista de Cacá Diegues sobre os protestos

Luiz Zanin Oricchio

24 de junho de 2013 | 17h31

Diretor de filmes como A Grande Cidade e Bye Bye Brasil, Cacá Diegues é um dos grandes nomes do cinema brasileiro e também um pensador do País. Às vésperas de lançar seu livro de memórias sobre a experiência do Cinema Novo nos anos 1960, Cacá confessa-se um veterano de passeatas. Participou de algumas manifestações que fizeram história, do apoio às Reformas de Base de Jango, em 13 de março de 1964, à célebre Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, já sob a ditadura. Ele, como tanta gente, se admira do aspecto fragmentário das atuais manifestações e confessa não saber aonde vai desaguar “um movimento que recusa se institucionalizar”. A pedido do Estado, Cacá respondeu a algumas questões sobre a onda de protestos que incendeia o país.

 O que você acha desse movimento, que nasceu de uma insatisfação pontual com o aumento das passagens de ônibus e metrô e tornou-se veículo de uma insatisfação generalizada?
O preço das passagens foi o pretexto para um movimento que, mais cedo ou mais tarde, aconteceria de qualquer maneira, fosse qual fosse o pretexto. Acho que existe um mal-estar geral na sociedade ocidental e uma crise clara da democracia representativa. Estamos vivendo uma crise que além de política é também comportamental. É normal que isso surja no seio da juventude, pessoas que ainda não estão condicionadas por costumes e tradições da ação política partidária e totalizante, em nome de ideologias que só servem de pretexto às amarras do status quo.

 O que acha da inclusão de pautas mais gerais como repúdio à corrupção ou mais conservadoras como abaixamento da maioridade penal entre os manifestantes?
Tenho vários jovens amigos, inclusive minha filha, que participaram das manifestações desde o princípio delas e não se assustaram com a diversidade das pautas de reivindicações e cartazes expostos. Mais importante do que o que eles dizem, é a noção de complexidade que se insere neles, como uma reação às simplificações do passado.

Qual a comparação possível entre as manifestações de hoje e as das décadas de 60, e também com as das diretas-já e as dos caras-pintadas contra Collor?
Fiz meu “serviço militar” político desde a passeata contra o aumento dos bondes, quando eu tinha 16 anos. Fui à famosa e exaltante passeata pró-Jango na Central no 13 de março de 1963, fui “dispersado” na saída da Candelária depois da missa do estudante Edson Luis, estava na dos Cem Mil em 1968, na das Diretas Já de 1984 e torci pelos caras-pintadas anti-Collor. Levei porrada da polícia do governador Carlos Lacerda, fui bem tratado pelo exército sob comando do presidente João Goulart, corri e cheirei muito gás dos soldados da ditadura, me emocionei com a unidade democrática das Diretas Já. Em cada ocasião dessas, sabia direitinho qual era a palavra de ordem (muitas vezes única) que devia proclamar e gritar. Agora é diferente, é uma coisa de nosso tempo, fragmentária, pontual, comportamental, que não se explica pela adesão a um líder ou a um partido, que não tem uma palavra de ordem única e universal.

Acha que existem relações entre o que acontece no Brasil e movimentos do tipo Occupy Wall Street, ou os da Praça Tahrir, ou dos “indignados” espanhóis?
Acho que sim. Sobretudo pelo sentimento de ausência de representação da população pelos políticos, pelo desgosto com o “sistema” (por mais abstrato que seja o sentido dessa palavra) e pela farra sem-vergonha e desaforada dos poderosos, sejam de que partido forem. Estive no acampamento do Ocuppy Wall Street, na praça Zuccotti, em Nova York, e vi como eles se consideravam representantes dos “99% da população que não estão no poder”. O 1% que sobrava estava excluído sem distinção de grupo, credo ou partido.

Enfim, já existe gente que, no princípio apoiou o movimento e agora teme pelos rumos tomados. Como você se posiciona sobre isso?

A grande incógnita é aonde vai desaguar um movimento que não deseja se institucionalizar, como se pode intervir na sociedade e no país sem uma institucionalização do movimento (se transformando num partido, por exemplo). Não sei como eles vão resolver isso, não tenho ideia. Talvez não seja mesmo para resolver nada. O importante é a mudança de comportamento e a ação por mudança.

 

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