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Entrevista com Samuel Titan, organizador de Impressões do Brasil

Luiz Zanin Oricchio

27 Abril 2011 | 18h48

Samuel Titan Jr., professor da Universidade de São Paulo e pesquisador do Instituto Moreira Salles, diz que a maior dificuldade foi selecionar os artigos de Roger Bastide para o livro, em meio a um sem-número de textos de alta qualidade que também poderiam entrar. “Ele escrevia sem parar e publicava tudo, num processo contínuo de esforço de compreensão do País”, diz. Abaixo, trechos da conversa do organizador de Impressões do Brasil com o Estado.

Vamos começar pelo princípio. Como foi a ideia de reunir esses textos de Roger Bastide num livro?

Na verdade, uma ideia muito simples. Todos nós da USP tínhamos lido o belo ensaio da Gilda Mello e Souza, a abertura do livro Exercícios de Leitura, no qual ela se refere aos artigos de Bastide que, cientista social por vocação, foram consagrados às letras e às artes. Essa faceta ficou meio esquecida, de modo que fomos atrás dos artigos. Alguns foram fáceis de encontrar, como os que ele escreveu para o Estadão, outros não. Por exemplo, a conferência que ele pronunciou para a exposição de arte francesa, foi publicado como uma separata publicada em 1938, pela Aliança Francesa. A pesquisa inicial era para trazer à luz textos de Lévi-Strauss, Jean Maugué e Bastide, mas havia uma desproporção: dois textos de Lévi-Strauss e dois do Maugué, e uma infinidade de textos de Roger Bastide. Resolvemos então separar as águas: publicamos os textos do Maugué e do Lévi-Strauss na revista da Biblioteca Mário de Andrade e dedicamos um livro ao Bastide.

Além da quantidade, o que chamou a atenção nesses textos do Bastide?

O fato de eles formarem um todo orgânico, dando conta da evolução do intelectual francês morando no Brasil. Primeiro ele se interessa por temas franceses, discorre sobre eles para o público local; em seguida, vai incorporando os temas brasileiros ao repertório da sua reflexão.

Foi uma característica da “missão francesa” no Brasil. Eles chegam, vão tomando pé do País e começam a refletir sobre ele em suas obras.

Sim, e quem fica mais, incorpora mais o Brasil, como foi o caso do Bastide, que ficou mais do que todos. Ele vai embora em 1954; fica, portanto, quase 20 anos por aqui.

E também o que chama a atenção é a diversidade de temas que ele aborda.

Sim, a impressão é de uma curiosidade, de um espírito muito irrequieto, que se interessa por tudo, literalmente. E, dessa variedade, ele consegue tirar uma grande originalidade de abordagem. Por exemplo, acho que um dos ensaios mais bonitos é Igrejas Barrocas e os Cavalinhos de Pau, de sabor bem proustiano. É um dos ensaios em que fica mais claro o movimento do estrangeiro, que se interessa pelo que é diferente, mas, para entender, precisa referenciá-lo ao que é familiar. Um movimento pendular muito nítido.

O olhar dele sobre São Paulo também é muito interessante, não?

Ah, é fantástico! É o espanto do estrangeiro que chega e se depara com o quê? Com o quarto da empregada nos apartamentos. É uma sacada maravilhosa: ele percebe que os brasileiros levaram a Casa Grande & Senzala para a residência vertical. Ele lia com muita atenção o Gilberto Freyre, o que mostra o tamanho da imersão dele nas coisas brasileiras. Lia os intelectuais brasileiros e observava o dia a dia nas cidades.

E escrevia, escrevia…

Você não imagina o trabalho que tivemos para selecionar, porque o material é enorme. Ele escrevia ensaios em bases semanais, no mínimo. E sobre tudo: de exposições de pinturas a reflexões políticas. Publicava tudo. Viajava muito e escrevia suas impressões. Há artigos dele publicados em jornais de Recife e Salvador, por exemplo. Desse material, privilegiamos o que tinha corte ensaístico. É também a passagem dele, do professor ao intelectual, ao ensaísta. Ele começa a escrever sobre pintores franceses, até chegar a uma leitura estética do candomblé em Ensaio de uma Estética Afro-Brasileira, que foi publicado no Estadão.

Esses textos permitem refletir sobre a influência que Bastide exerceu sobre a intelectualidade brasileira, não?

Sem dúvida. O ensaio sobre Machado é um divisor de águas. Antonio Candido não deixa de falar que mudou sua leitura de Machado de Assis a partir dele. A influência sobre Dona Gilda Mello e Souza foi total. Ele orientou a tese dela, O Espírito das Roupas, texto que hoje vemos como muito referenciado às ideias de Bastide. E você toma o último ensaio do livro Sociologia e Literatura Comparada e vê como ali estão ideias que Candido desenvolveria no seu Formação da Literatura Brasileira. É bonito ver esses projetos intelectuais que vão ganhando corpo no diálogo entre mestres, discípulos e colegas. Bastide foi fundamental.

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