Entrevista com Marco Bellocchio
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Entrevista com Marco Bellocchio

Luiz Zanin Oricchio

11 de abril de 2013 | 11h37

É um fato raro que um grande diretor italiano, como Marco Bellocchio, tenha seus dois filmes mais recentes programados para estreia próxima no Brasil. Irmãs Jamais entra em cartaz dia 19 e A Bela que Dorme, que deveria estrear em abril, ficou para maio.

São os dois trabalhos novos de um cineasta que foi muito amigo dos diretores do Cinema Novo (leia texto ao lado) e ficou conhecido em 1965 com um filme explosivo e provocador como De Punhos Cerrados, uma visão radicalmente corrosiva da família burguesa italiana. Com sua visão política aguda, e mesclada pela influência da psicanálise, Bellocchio continuou em seu veio provocativo, com filmes fortes como A China Está Próxima (1967), Olhos na Boca (1982), Diabo no Corpo (1986) e O Processo do Desejo (1991). Ausente das telas brasileiras durantes alguns anos, voltou com dois filmes estupendos, Bom Dia, Noite (2003), sobre o caso Aldo Moro, assassinado pelas Brigadas Vermelhas, e Vincere (2009), ambientado na Itália de Benito Mussolini.

Irmãs Jamais (2010) e A Bela que Dorme (2012) deverão agradar aos fãs do cinema de autor. O primeiro usa atores e parentes do próprio Bellocchio no elenco. É fruto de um laboratório de cinema que ele promove todos os verões em sua cidade, Bobbio, em Piacenza. O segundo, inspira-se no caso real de Eluana Englaro, jovem que permaneceu 17 anos em estado vegetativo até que teve os aparelhos desligados, num processo que comoveu a Itália católica e dividiu os partidos políticos. É um filme brilhante pela maneira como capta os reflexos de um drama familiar sobre o conjunto de uma sociedade partida.

Da Itália, Bellocchio conversou por telefone com o Estado.

 

Irmãs Jamais é um filme feito a partir do seu workshop Fare Cinema. Gostaria que me explicasse um pouco em que consiste

Bem, Irmãs Jamais é um filme que nasceu um pouco por acaso. A cada ano, fazíamos essa laboratório em minha cidade, Bobbio, na região de Piacenza e, depois de dez anos me dei conta de que seis desses episódios tinham um fio comum. É claro que é um filme único para mim, no sentido em que foi rodado durante dez anos.

Mostra os personagens evoluindo na vida…

Sim, o que colocava uma dimensão suplementar, porque ao longo de dez anos, os personagens mais velhos mudavam pouco enquanto os mais jovens, meus dois filhos, Piergiorgio e Elena, mudavam bastante. Sobretudo Elena, que vai dos quatro aos 14 anos durante a filmagem. Essa dupla representação é uma característica muito importante do filme. No mesmo ambiente, e na mesma estação, porque é rodado sempre no verão, tudo muito improvisado, vivido com muita leveza, muita liberdade. Mesmo porque não havia ideia de que se tornasse um filme.

Mas havia um roteiro prévio?

Bem, a cada ano havia uma pequena ideia e o roteiro se improvisava em cada dia em que havia o laboratório. Inseríamos atores amigos e também conhecidos de Bobbio e parentes. Por exemplo, há Alba Rohrwacher, que faz uma professora, e Donatella Finocchiaro, que havia feito comigo Il Regista di Matrimoni, e que faz no filme a irmã de Piergiorgio e mãe de Elena. E há personagens que interpretam a si mesmas – as minhas duas irmãs são elas mesmas na história. Enfim, era um filme que se construía à medida em que era feito e sem que nos déssemos conta de que estávamos fazendo um filme. Foi apenas depois que me dei conta disso.

Deve ter sido um exercício único de liberdade, e bastante prazeroso para um diretor, não?

Sim. Claro que quando você faz um filme você faz também um exercício de liberdade, mas há muitas condicionantes. O planejamento, a montagem, a apresentação ao público. Há os investimentos econômicos superiores e portanto uma responsabilidade em relação a quem produz e distribui. É um outro espírito.

É uma experiência a ser repetida?

Não sei. Porque é uma experiência na qual a vida se mescla ao trabalho. Quase mágico, de liberdade completa, mesmo porque, repito, eu não esperava fazer nada desses episódios. Nesse sentido, é um filme único. Continuo a fazer o laboratório, mas não sei se haverá um outro filme derivado dele.

Em Irmãs Jamais há inserções, bem discretas, de cenas do seu primeiro filme, De Punhos Cerrados. No entanto, são duas visões bastante diferentes, para não dizer opostas, sobre a família, não?

Bem, eu coloco alguns fragmentos, porque certos ambientes de Irmãs Jamais são exatamente os mesmos de De Punhos Cerrados. Mas o espírito é outro, sem dúvida. Voltei a Bobbio muitos anos depois, e com um espírito afetuoso. Não digo de reconciliação, porque não havia com o que se reconciliar, mas de afeto mesmo. É muito curioso, porque o ambiente é o mesmo, as mesmas paredes, o mesmo lampadário, os mesmos móveis, mas aquele espírito de raiva, de ódio, de enfrentamento, não existem mais. E há o reencontro com minhas irmãs, que foram, de certo modo, vítimas da conformação daquela família. Foi uma alegria representá-las naquela forma discreta, afetuosa. É um filme dedicado às minhas irmãs, sob esse nome ficcional, Mai

Escolheu esse nome pelo significado da palavra, mais=jamais ou nunca?

No sentido em que a vida delas foi de sacrifício, como se vivessem no século 18, quando estamos em 2013. “Mai” no sentido de que nunca se casaram ou tiveram uma vida “normal”. Por escolha própria, certo, mas também porque foram levadas a isso pela família. Enquanto os irmãos saíram para o mundo, elas ficaram no interior da família. Como protetoras da família e, ao mesmo tempo, vítimas da vida familiar.

A Bela que Dorme é, de certa forma, um filme sobre a família, também, não? Mas há um lado político também. Alguém sugeriu que a bela adormecida do título pode ser a própria Itália…

É verdade (risos), se pode pensar nessa possibilidade mesmo. O filme parte de um episódio que provocou um grande debate, sobretudo no mundo católico. O tribunal acabou decidindo pelo desligamento dos aparelhos e a própria Eluna havia dito que, se algum dia ficasse em estado vegetativo, pedia que a deixassem morrer. Esse debate convulsionou a nação, sobretudo nos seis dias em que Eluana passou na clínica de Udine onde finalmente morreu.

Divisões não apenas na sociedade mas no mundo político, não?

Sim, sobretudo no mundo berlusconiano, que, para agradar os católicos e o Vaticano, tentou emanar uma lei que bloqueasse essa sentença. A partir desses fatos concretos, tentei imaginar algumas histórias inventadas, ficcionais, mas que coubesse naquela “Itália adormecida” de que você falava há pouco. E, nesse processo de adormecimento, há uma série de despertares. A filha que desperta e se reconcilia com o pai; o senador de Berlusconi que escolhe votar de acordo com a sua consciência. E assim por diante. É um filme sobre o sono, mas também sobre o despertar – metaforicamente falando. Nesse sentido, pode-se falar mesmo que a bela adormecida seja a Itália.

Itália que vive uma situação surpreendente, com o impasse nas eleições, a ascensão de Beppe Grillo.

Pois é, há um impasse neste momento. Ou a centro-esquerda faz uma aliança com a centro-direita ou será preciso nova eleição. Por outro lado, há uma descrença generalizada em relação à política e aos políticos e aos partidos. Essa descrença confluiu no movimento de Grillo e em seu partido Cinco Estrelas. Enfim, o futuro está indefinido.

Você tem algum novo projeto de filme?

Sim, mas ainda estou pensando. Estou estudando prjetos, ainda não escolhi. Na Itália também há uma crise da economia que atinge a cultura e o cinema também. Mais difícil ainda quando não se quer fazer uma comédia. Porque agora aqui na Itália se aposta tudo na comédia, e, devo dizer que não vivemos propriamente na idade de ouro da comédia.

Comédias como as de Dino Risi e Mario Monicelli iam além do cômico. Eram comédias críticas.

Para dizer de maneira simples: eram comédias contra o poder. Mesmo porque o cinema tinha essa marca de esquerda muito pronunciada, enquanto o poder era de centro e de direita. A comédia era um manifesto contra o poder dominante. Hoje as comédias são de evasão, pura e simples. Podem fazer pequenas caricaturas do poder, mas não têm a força de denúncia das comédias dos anos 60 e 70.

 

Bellocchio e o Brasil

Quando convidado a falar sobre o Brasil, o cineasta Marco Bellocchio lembra, de imediato, de seus amigos, alguns deles companheiros de estudo no Centro Sperimentale di Roma. “Infelizmente, alguns deles já mortos, como Joaquim Pedro de Andrade, Paulo César Saraceni e Glauber Rocha”.

Bellocchio lembra que suas inquietações, como cineasta iniciante nos anos 1960, eram idênticas às dos parceiros brasileiros. “Como o pessoal do Cinema Novo, nós também, na Itália, procurávamos fazer um cinema político, porém formalmente inventivo”, diz.

Lembra, também, que seu primeiro longa-metragem de ficção, De Punhos Cerrados, foi premiado no Festival do Rio, em 1965. E, bem mais recentemente, se orgulha de ter recebido o prêmio da Mostra de Cinema de São Paulo de 2012 para Vincere, seu filme sobre a era de Mussolini na Itália.

No entanto, quando se pergunta se acompanha a recente produção brasileira, demora a responder. “Os filmes circulam pouco, lembro de Central do Brasil e do seu diretor, Walter Salles, muito simpático”, diz. “Mas a verdade é que o intercâmbio cultural entre Brasil e Itália, que era muito forte, diminuiu bastante”.

 

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