Entrevista com Luisa Dantas, de Land of Opportunity
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Entrevista com Luisa Dantas, de Land of Opportunity

Luiz Zanin Oricchio

27 de agosto de 2010 | 08h15

luisa

Primeiro, gostaria que você falasse um pouco da sua carreira. Onde estudou cinema, quais seus filmes anteriores, experiência em documentário, etc. Por que motivo você foi morar nos Estados Unidos? É melhor para o seu trabalho?

Sou filha de brasileiros, nascida em Nova York.  Estudei cinema na Columbia University em Nova York onde a minha co-editora, Karen Szjtanberg, também estudou.  Trabalhei como assistente de direção no Brasil e nos Estados Unidos durante alguns anos antes de produzir  o meu primeiro curta, Bolo, que foi produzido e rodado no Brasil.  Fui co-produtora do documentário Wal-Mart:  The High Cost of Low Price.  O meu ideal seria continuar trabalhando entre Brasil e EUA.  Gostaria de manter um pé em cada lugar.

Sobre o documentário: quando ele será lançado e de que forma? Será no dia 29 de agosto, cinco anos depois da tragédia do Katryna? Fale um pouco da estratégia de lançamento.

O filme será exibido na França e Alemanha pelo canal Arte, no dia 27 de agosto, dois dias antes do quinto aniversário do Katrina.  Não tenho exibição garantida ainda nos EUA ou Brasil.  Estou inscrevendo o filme em vários festivais internacionais,  inclusive no Rio e em São Paulo. Estou desenvolvendo uma estratégia alternativa de lançamento em parceria com varios grupos e ONGS  nos EUA que trabalham em torno das questões urbanas  que são destacadas no filme.

Como foram feitas as filmagens? Durante quanto tempo você acompanhou as pessoas? Como escolheu os personagens?

Comecei as filmagens em Janeiro de 2006 e me mudei pra New Orleans em julho de 2006.  Acompanhei as pessoas durante quatro anos e meio.  A ideia do filme é mostrar, sob o ponto de vista de personagens de origens diferentes, os dramáticos altos e baixos de um processo de reconstrução urbana em grande escala e sem precedentes no “primeiro mundo”.  Em alguns casos cheguei aos personagens de forma inesperada.  Por exemplo, conheci o menino Tr’Vel   quando um colega na faculdade onde eu dava aula de cinema estava na farmácia e ouviu a farmacêutica comentando que era sobrevivente do Katrina.  Ele sabia que eu estava começando a trabalhar no projeto, e pegou o telefone dela.  Ela é a mãe do Tr’Vel.  No caso dos trabalhadores brasileiros, eu os conheci num acampamento de trabalhadores latinos que se formou alguns meses depois do Katrina num parque no centro da cidade. Os trabalhadores estavam limpando a cidade destruida,  trabalhando em condições primitivas e precárias,  sem eletricidade ou qualquer infraestrutura.  Estava entrevistando alguns trabalhdores mexicanos quando escutei um grupo falando português.  Foi uma grande surpresa descobrir que muitos brasileiros faziam parte dessa mão de obra maciça que estava reconstruindo a cidade.

Marcio

Quanto tempo de material você conseguiu e como foi para montá-lo? Pergunto isso porque, em geral, nesse tipo de filme, é bem difícil escolher o que vai ficar na montagem final e o que ficará fora. Como foi a sua experiência nesse particular?

Juntamos mais de mil e quinhentas horas de material.  Foi um processo extremamente duro reduzir esse volume de material pra 95 minutos.  Para cada história que incluimos na versão final do longa, existem cinco histórias maravilhosas.  Por isso, este sempre foi um projeto “multi-plataforma” que inclui material que será divulgado no site, http://landofopportunitymovie.comlandofopportunitymovie.com Estes “webisodes” seram divulgados ao longo do ano, também em parceria com grupos em ONGS nos EUA e afora.

Qual o “papel” dos brasileiros que você entrevista nesse drama de New Orleans? Você já teve idéia de fazer alguma coisa em particular sobre os imigrantes brasileiros nos EUA? (Pelo que soube, por um amigo aí residente, cerca de 80% dos brazucas estão de maneira ilegal no país.)

O papel dos brasileiros aqui foi fundamental.  Eles participaram de uma forma decisiva na reconstrução de New Orleans, inclusive num dos maiores projetos, a reforma do Superdome,  que foi subvencionado pelo governo.   O Superdome, um estádio de football americano, virou um símbolo da tragédia do Katrina, quando milhares de pessoas ficaram presas lá dentro sem comida ou água durante cinco dias antes do resgate do governo federal.  E, com certeza, a maioria dos brasileiros que encontrei estão no país sem documentação.

Vejo que você tem interesse em fazer um cinema de cunho social. De modo geral, como você acha que o cinema pode interferir na realidade social e, em particular, como isso se dá nesse caso de New Orleans?

Acho que o cinema não só pode, mas deve interferir na realidade social.  Como cidadã brasileira e americana,  eu sempre observei de perto as diferenças e semelhanças entre os dois países, e acho importante mostrar que os EUA têm muito mais em comum com o dito terceiro mundo que se pensa.   Pós-Katrina, New Orleans representa tudo que está falido no sistema sócio-econômico do país.  A cidade de certa forma simboliza todos os dilemas que as grandes cidades americanas estão enfrentando, imigração, pobreza, deslocamento etc.   Por um lado, a reconstrução da cidade proporcionou amplas oportunidades para quem quer lucro e  poder. Mas o desastre gerou também novas oportunidades para cidadãos comuns se engajarem e lutarem pelo futuro de suas comunidades. Enquanto as tensões aumentam e os conflitos irrompem entre moradores, ativistas, empresários e políticos,  o filme apresenta um microcosmo de um país dividido por raças e classes sociais.

Quais são as suas referências documentais? Quais diretores (e filmes) você acha que te infuenciam, no presente ou no passado?  O que você gosta de ver?

Eu prefiro não distinguir muito entre documentário e filme de ficção.  Acho que os princípios de narrativa são os mesmos.   Um filme que me influenciou muito foi “Traffic”, do Steven Soderbergh, que entrelaça várias histórias com protagonistas diferentes.  É um filme íntimo e épico ao mesmo tempo.  O espectador entende várias facetas de uma situção extremamente complexa através da experiência ultra-pessoal de cada protagonista.

Por falar nisso, você certamente viu o longo documentário de Spike Lee sobre a devastação em New Orleans.  O que achou dele?

Você se refere ao When The Levees Broke de 2006? Sim, eu vi e achei genial mas o próximo documentário dele, “If God is Willing and Da Creek Don’t Rise”, retrata a cidade cinco anos depois do Katrina..  O nosso filme complementa muito bem o filme do Spike Lee.  Ele é uma maestro que, expõe uma visão ampla dos maiores acontecimentos dos últimos cinco anos em New Orleans, inclusive o desastre BP, que está acontecendo agora.  O filme dele mostra uma visão macro, com entrevistas e comentários de dezenas de pessoas com vários pontos de vista.  O nosso filme oferece uma experiência mais íntima que acompanha oito pessoas durante quatro anos e meio.  Não tem comentário alheio nem maiores explicações.  O espectador só ve aquilo que acontece com nosssos protagonistas.

É verdade que o Spike Lee andou atrás de você em busca de algumas imagens? O que houve?

Sim, ele acabou usando as nossas imagens de uma reunião crucial que houve entre o conselho municipal e residentes dos conjuntos habitacionais que o governo queria demolir.  Ativistas e residentes protestaram contra a demolição e a polícia usou o taser (aquela arma de choque paralisante) pra controlar a multidão.

Por causa do material que nós cedemos, o Spike se interessou pelo projeto e  vai produzir o nosso contéudo  pro site.

Tem algum novo projeto pela frente? Ou vai se concentrar apenas no lançamento do filme?

Comecei a escrever um roteiro baseado num livro chamado “Desire Street”, do Jed Horne, que também é ambientado em New Orleans e retrata um crime famoso que aconteceu aqui em 1984.  Depois disso, quero voltar pro Brasil!

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