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Entrevista com Jean-Jacques Annaud: Aventureiro em viagem pelo tempo

Luiz Zanin Oricchio

17 de novembro de 2007 | 21h40

MANAUS

O francês Jean-Jacques Annaud é a cara do festival amazonense. Se este é um evento dedicado especialmente aos filmes de aventura, Annaud, nascido em 1953, não deixa de ser um aventureiro. Gosta de filmar em outros países e, na conversa que teve com o Estado, se define como viajante nato, desde a adolescência. Annaud escolheu Manaus para mostrar pela primeira vez no Brasil o seu novo filme, Sua Majestade Minor. É surpreendente e vai gerar muita polêmica. Também é um filme de viagem, no caso uma viagem no tempo. Vai para uma época pré-Homérica, ao universo fabular, dialoga com o Shakespeare de A Tempestade e exige que o espectador abandone uma expectativa realista e conviva com um personagem criado por porcos, que se torna rei e elege um sátiro como conselheiro político.

Annaud, vencedor do Oscar com seu primeiro filme, Preto e Branco em Cores, e diretor de sucessos como O Nome da Rosa e O Amante, conversou sobre seus filmes e suas idéias a bordo de um barco que ia de Manaus a um hotel na floresta, onde passaria a noite. Abaixo, trechos da entrevista.

Você, que é cineasta conhecido por filmes ambientados em terras distantes, já conhecia a Amazônia?

Conhecia a parte da Guiana Francesa, mas ela tem pouco a ver com essa imensidão toda (abrange, com o olhar, a cena impressionante da massa d’água do Rio Negro). Mas esta Amazônia brasileira, Manaus, são lugares míticos, sobre os quais os europeus sempre pensam quando sonham com aventuras. Fico extremamente gratificado de estar aqui. Além disso, há um ritmo particular, que me permite, por exemplo, conversar com calma com jornalistas e mesmo com meus compatriotas, gente que admiro, que mora em Paris como eu e com as quais não consigo conversar. Por exemplo, está aqui a figura mítica do cartunista Georges Wolinsky, por quem tenho grande admiração. Pela primeira vez na vida estou tendo oportunidade de conviver com ele.

Você é o mais internacional dos diretores franceses. Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro já com seu longa de estréia, Preto e Branco em Cores. Foi o Oscar que o motivou a seguir carreira internacional, ou, antes do prêmio você já cultivava esta visão internacional, que permitiu chegar ao Oscar?

Acho que a segunda hipótese é a correta. Antes de me tornar cineasta, ganhava a vida com publicidade, o que exigia viagens constantes. Viajando, me dei conta de que não queria fazer filmes para estrear em pequenas salas de periferia, para um público restrito. Não queria também fazer filmes com base em uma cultura restrita, mesmo que rica, como a francesa. Minhas referências maiores no cinema eram os épicos de Eisenstein e do cinema japonês, em especial Mizogushi e Kurosawa. Não me sinto particularmente influenciado nem pelo cinema americano nem pelo francês.

De qualquer forma, um Oscar dá muito poder de decisão a um diretor, não?

Abre portas. Mas é preciso que haja alguma coisa atrás dessas portas. E o que eu tinha a propor era Guerra do Fogo. Mas antes fiz um pequeno filme na França, Coup de Tête, com Patrick Dewaere, que ficou um pouco à parte na minha carreira. Tremendo fracasso comercial, mas depois percebi que se transformara em filme de culto para muita gente. Com Hollywood consegui viabilizar vários dos meus filmes como o próprio Guerra do Fogo, O Nome da Rosa, O Urso, O Amante, Sete Anos no Tibete.

Em alguns desses filmes, você teve que tratar com grandes nomes da literatura, como o italiano Umberto Eco e a francesa Marguerite Duras. O que o atraiu em O Nome da Rosa?

Li sobre o livro no Le Monde e fiquei louco. Depois fui ao próprio romance, livro difícil…

Com passagens inteiras em latim…

Pois é, as pessoas compravam, mas muitas não liam. Era um caso de prestígio colocá-lo na estante. Mas o livro tinha tudo para me atrair. Primeiro, ambientado num monastério medieval. Eu sou fixado nisso. Depois, a questão policial, um crime acontecendo num desses monastérios e sendo resolvido por um Sherlock Holmes do medievo. Terceiro, a questão do riso, através de um texto supostamente de Aristóteles, que teria se perdido. É tudo muito atraente…

Mas como foi o relacionamento com Umberto Eco?

O melhor possível, porque é um homem de uma abertura de espírito extraordinária. Desde o começo, ele disse: ‘É o meu livro e será o seu filme.’ Me dizia que se eu fizesse um musical do livro, ainda assim o interessaria… Isso porque ele tem a compreensão de que se trata de duas linguagens diferentes, a da literatura e a do cinema. Ele dizia uma coisa muito interessante: ‘E se alguém me pedisse para fazer uma estátua a partir do O Nome da Rosa? O que sairia daí? Não se sabe, mas não seria o livro.’ Quer dizer, o livro é o livro e o filme é apenas alguma outra coisa, em outra linguagem, inspirada nele.

Imagino que nem todos os autores tenham essa abertura de espírito, como você falou. Muitos se apegam demais às suas obras. Imagino que a experiência com Marguerite Duras tenha sido diferente…

Foi tudo muito difícil, mas ao mesmo tempo muito digno. Ela achava que tinha de dirigir, mas também queria fazer sucesso, tornar aquela história conhecida pelo maior número possível de pessoas, o que implicava, por exemplo, fazer o filme em língua inglesa. Como se tratava de uma passagem até certo ponto autobiográfica, ela sentia como se estivesse alienando parte de sua história para um outro, que era eu. A tal ponto que, antes da estréia do filme, escreveu outro texto, O Amante da China do Norte, como forma de reapropriar-se da sua própria história, que, aliás, nunca havia deixado de ser sua.

Foi também um sucesso de escândalo, não?

Até hoje não acredito. O que as pessoas queriam saber era se os atores tinham transado de fato ou não. Primeiro que isso não aconteceu. Segundo: se algum personagem morre no filme, o ator morre na realidade? Se um personagem sente prazer, o ator sente? Se é torturado, isso é de verdade. Parece incrível que a esta altura, as pessoas ainda não saibam distinguir realidade e ficção.

Algum projeto que envolva o Brasil?

Pode ser. Mas o dia que isso acontecer, quero fazer uma imersão na cultura brasileira, como fiz quando filmei na África ou no Tibete, por exemplo. Não gostaria de fazer nada superficial.

(Estadão, Caderno 2, 15/11/07)

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