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Entre o sol, o mar e o tigre

Luiz Zanin Oricchio

20 de dezembro de 2012 | 10h22

Um enorme tigre de Bengala, um menino, ambos em um bote perdido no mar imenso, sol e chuva, fome e medo – e fé. Eis os ingredientes deste incrível As Aventuras de Pi, de Ang Lee, adaptado de um livro de Yann Martel, aqui publicado pela Nova Fronteira. A história é relatada por Pi já na meia-idade (Irrfan Khan) a um jornalista em busca de uma narrativa que o faça acreditar em Deus.

A aventura é a do próprio Pi Patel, filho de um dono de zoológico na Índia. Pi na verdade se chama Piscine Patel, mas prefere ser confundido com a letra grega Pi, aquele número que define a razão entre o perímetro de uma circunferência e seu diâmetro (qualquer estudante conhece o famoso 3,14… etc.). É um número irracional, pode se estender ao infinito e era tido como sagrado na Antiguidade. Assim, o garoto prefere ser associado a um dos mistérios da matemática que à mitológica Piscina Molitor, em Paris, tão admirada por seu pai que o inspirou na escolha do nome do filho.

O fato é que os negócios do zoo vão mal e é preciso tentar vida em outro país. A família embarca num navio rumo ao Canadá, mas ventos e tempestades mudam os projetos humanos. Após uma tempestade, o jovem Pi se verá num bote de salvamento em companhia de uma zebra, um orangotango fêmea, uma hiena e o tal tigre de Bengala que, aliás, tem nome e prenome: chama-se Richard Parker.

Na entrevista, por telefone do México, onde estava lançando seu filme, Ang Lee conta como conheceu essa história, encantou-se por ela, mas, de certa forma, temia filmá-la, pois antevia as dificuldades em transformar o material literário em cinema de estrutura sólida. Optou pelo 3D porque este serviria à fantasia e também porque seria um desafio a mais para este cineasta que vive de enfrentá-los.

O taiwanês Ang Lee de fato encara qualquer tipo de gênero. Tornou-se conhecido com o pequeno filme de costumes Banquete de Casamento (1993). O humanista Comer, Beber, Viver (1994) de certa forma seguia o anterior. Mas em seguida, vamos encontrá-lo adaptando Jane Austen em Razão e Sensibilidade (1995). Em seguida, Tempestade de Gelo (1997), imersão radical no mal-estar norte-americano, para alguns o seu melhor filme e, se não for o melhor, o mais duro e implacável. O Tigre e o Dragão (2000), que lhe dá o Oscar, é sua visita ao mundo das artes marciais. A “volta” ao Ocidente se dá com um inesperado Hulk (2003), mas a grande surpresa estava por vir no trabalho seguinte – O Segredo de Brokeback Mountain, o famoso filme dos caubóis gays que lhe deu o Leão de Ouro em Veneza em 2005. Em 2007, ele se volta para uma trama totalmente oriental,Desejo e Perigo, que, de novo em Veneza, o torna um raro diretor que pode colocar dois Leões de Ouro na estante.

Agora chega com esse estranho arrasa-quarteirão, que é um filme de aventuras, mas também meditação metafísica. Pura diversão, mas que faz pensar. Pensamento, mas que emociona. E diverte. Abaixo, a entrevista que o diretor concedeu ao Estado.

Como você conheceu o livro de Yann Martel e por que se interessou em adaptá-lo para o cinema?

Li o livro dez anos atrás, logo que foi editado. Um amigo meu apresentou o livro a mim e passamos a lê-lo, eu, minha esposa e filhos. Acho o livro muito inspirador e charmoso, também. É uma ótima história, mas que coloca alguns problemas para ser transformado em filme, por ser muito imaginativa. É uma história sobre a ilusão. E como levar a plateia numa viagem desse tipo? De qualquer forma, há alguns anos comecei a pensar que poderia se transformar num filme interessante e acabei por me envolver no projeto após muita hesitação.

Trata-se de um filme de aventuras, mas que vai muito além do limite desse gênero. De alguma forma, a história me lembrou o romance de Edgard Allan Poe, Arthur Gordon Pym. Um naufrágio seguido da luta mais renhida pela sobrevivência, que se transforma numa espécie de iluminação espiritual. Tem algo a ver?

Sem dúvida, a história aponta para outras coisas além da mera aventura. Há algo que de fato lembra a história de Poe, de luta pela sobrevivência, mas com um toque talvez religioso no fim. O problema de adaptação era levar o espectador a uma viagem emocional, sendo que Martel havia escrito uma história filosófica.

Outro aspecto interessante é a duplicidade de versões. Pi conta duas histórias e o espectador deve decidir qual delas é a melhor. Isso já estava no livro?

Na verdade, não. Achei que uma estrutura melhor seria ter dois narradores. O Pi adulto, que narra, recordando o que aconteceu 30 anos antes, e o Pi menino, que vive a sua aventura. Daí que são dois pontos de vista diferentes e que se alternam. E há um terceiro narrador, onisciente, em terceira pessoa. Para um filme que discute a fé, sob vários ângulos, acho que é interessante essa pluralidade de narrativas.

Gostaria que você falasse um pouco sobre a opção da filmagem em 3D. Esse recurso lhe deu melhores condições para contar a história?

Bem, eu creio que é uma maneira mais eficaz de introduzir os espectadores nesse mundo de fantasia que, afinal, é a história do filme. Era um recurso que estava à disposição. E é um filme aquático quase o tempo todo. Acho que o 3D casa muito bem com o mundo aquático, o mar, e todo o mistério que ele encerra.

Gostaria que falasse do elenco. Como foi trabalhar com atores indianos, em especial com Irrfan Khan, que é bastante carismático.

Ele foi o primeiro em que pensei. É um grande ator e bastante carismático. Mas o mais jovem também me impressionou muito, Suraj Sharma. O público acredita nele quando o vê na tela. Seu olhar é expressivo, espiritual. Nós o selecionamos entre mais de 3 mil garotos, que fizeram teste para o papel de Pi. Tivemos sorte de trabalhar com eles, e o encanto do filme se deve muito ao elenco.

Gérard Depardieu faz um pequeno papel na história. Como foi trabalhar com ele?

Acho que ele gostou muito de fazer esse papel do cozinheiro da embarcação. Deu um sabor todo especial a essa participação e enriqueceu muito o filme com ela.

Você venceu em Veneza duas vezes, uma com O Segredo de Brokeback Mountain e com Desejo e Perigo. Dois Leões, para filmes tão diferentes. Como faz para manter seu estilo diante de trabalhos tão diferentes? 

Você não é o primeiro a me fazer essa pergunta. Quando acho uma história atraente, busco a melhor maneira de contá-la. Acho que, por isso, a narrativa muda muito em função do que tenho para contar, do material que se oferece. Sou muito curioso. Acho que fico estimulado por esse tipo de desafio, ter histórias diferentes para contar e fazê-lo também de modo diferente. Acho ótima essa sensação de estar na beira do abismo, de sair da zona de conforto. Espero que minha carreira siga assim, sendo desafiado de filme para filme. Cada filme me ensina alguma coisa, e é assim que encaro a carreira de um diretor de cinema.

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