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Entre Abelhas

Luiz Zanin Oricchio

01 de maio de 2015 | 11h29

Bruno (Fabio Porchat) “comemora” a separação conjugal com amigos, numa festinha de embalo com moças de vida airosa, como se dizia nos tempos de Nelson Rodrigues. No dia seguinte, aos efeitos compreensíveis de uma ressaca, soma-se outro, mais perturbador que a dor de cabeça ou a boca ressecada. As pessoas começam a sumir de sua vista. Assim, do nada. Como acontece com o motorista de táxi que, de repente desaparece do banco dianteiro, sendo que o carro prossegue seu percurso. Bruno se preocupa com isso e, claro, leva o problema a sua mãe (Irene Ravache), com quem mora enquanto busca seu apartamento de neosolteiro.

O filme é uma tentativa de Porchat em mudar sua embocadura cômica. Mas, compreensivelmente, procura situar-se no meio do caminho. Um pé no conhecido, outro no desconhecido. De um lado, a veia cômica, que se expressa na maneira rápida de entoar os diálogos, no jeito espirituoso de abordar os problemas, na irreverência militante. Bem Porta dos Fundos. De outro, a tentativa de imergir o personagem num universo kafkiano em que as pessoas vão progressivamente sumindo de sua vista.

O filme é dirigido por Ian SBF, diretor de esquetes do canal de internet do grupo Porta dos Fundos. Trata-se, diz ele, de projeto antigo, acalentado há mais de uma década e que encontra em Fábio Porchat um entusiasta e colaborador, inclusive no roteiro. Há muita coisa interessante em Entre Abelhas. Por exemplo, a fotografia em tons neutros, evitando o registro publicitário. Neutraliza os cartões postais do Rio, embora seja inteiramente filmado na cidade. Uma cidade que vai progressivamente sendo despovoada, para o olhar e desespero de Bruno.

Não há nenhum problema em tentar um mix entre comédia e drama. Boa parte da melhor commedia all’italiana – com Dino Risi, Mario Monicelli  e tantos outros – fez exatamente isso. Filmes como A Grande Guerra (Monicelli) e Aquele que Sabe Viver (Risi) são desse jeito. Começam no registro cômico, mudam de rumo, tornam-se dramáticos, não raro trágicos, e terminam deixando um riso de gosto amargo na boca do espectador. Seu grande encanto era exatamente esse, o de não se deixarem classificar por inteiro num gênero e transitarem entre eles. Gêneros, lembre-se, representam apenas um esforço de classificação crítica e não devem servir de camisas-de-força aos criadores.

De modo que não existe qualquer problema prévio de Entre Abelhas ser uma forma híbrida. A não ser, talvez, pelo fato de a transição entre gêneros parecer às vezes pouco fluida. A impressão que se tem (subjetiva, claro) é de que se ri pouco da comédia e pouco se aflige com o drama. Afinal de contas, existe um simbolismo muito certeiro no “desaparecimento” das pessoas e na falência do mundo de Bruno. Cada vez mais andamos enturmados e conectados. E, progressivamente, nos tornamos sós em meio a multidões, reais ou virtuais. Há quem tenha milhares de amigos no Facebook e nenhum na vida real. Quando esse fenômeno se torna coletivo, é previsível que as pessoas sumam e o próprio Eu entre em colapso. Só que isso não encontra forma de expressão no filme.

A questão, portanto, não é transitar entre gêneros, mas ficar indeciso entre eles. O esforço – válido – de Entre Abelhas é encontrar um espaço palpável entre a comédia escrachada, que faz sucesso de público no Brasil, e alguma proposta crítica ou reflexiva, que tem sido repudiada nas salas de cinema. Esse caminho do meio, ou tentativa de síntese, procura se valer da persona midiática de Fábio Porchat. Resta ver se o público será atraído por ele para fora de sua zona de conforto ou se, pelo contrário, estranhará a presença do ator nesse papel de dupla face.

 

 

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