‘Entardecer’: a barbárie sob a fina película da civilização
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‘Entardecer’: a barbárie sob a fina película da civilização

Mesmo diretor do premiado 'O Filho de Saul' examina agora o clima do declínio da civilização europeia, que levou à 1ª guerra mundial

Luiz Zanin Oricchio

09 de maio de 2019 | 09h56

László Nemes é o diretor húngaro conhecido pelo drama histórico sobre o Holocausto O Filho de Saul, que ganhou o Oscar. Com Entardecer, ele recua no tempo histórico e faz uma espécie de prospecção das condições que levaram à derrocada da civilização europeia na 1ª Guerra Mundial. Hobsbawm defendia que o século 19 terminava apenas em 1914, com a falência da belle époque nas trincheiras da guerra.  

Entardecer é um trabalho muito bonito, original, inteligente do ponto de vista da filmagem, um tanto hermético pela proposta de jamais dar respostas fáceis a questões difíceis. Ganhou o prêmio internacional da crítica (Fipresci) no Festival de Veneza.

Irisz Leiter (Juli Jakab) é uma bela designer de chapéus que tenta se empregar na loja que um dia pertencera a seu pai. O mundo é o da elegância e refinamento. Mas, sob essa película muito fina de civilidade, se agitam tensões, um mundo misterioso de culpas e ressentimentos. A violência é latente e prestes a aflorar. Em démarche misteriosa, Nemes, com a câmera colada à nuca de sua personagem, tenta captar o mal-estar que precede a catástrofe numa Europa que parecia haver atingido o cume civilizatório no início do século 20 e estava apenas incubando o ovo da serpente. “Coisas belas servem para esconder o horror do mundo”, diz um personagem.

Apesar do desfecho um tanto didático (mas não por isso menos belo), a obra parece acreditar no poder do enigma e da sugestão como motivadores de reflexão no distinto público. Mesmo porque vivemos em época talvez semelhante, na qual um ápice, já não de civilização, mas de desenvolvimento tecnológico, parece conviver com a ascensão de barbáries diversas, preconceitos, pensamento mágico, regressões morais e fanatismo religioso.

O Brasil atual é um dos casos extremos desse paradoxo, mas não o único.

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