Ensaio sobre a cegueira
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Ensaio sobre a cegueira

Luiz Zanin Oricchio

23 de setembro de 2008 | 19h53

cega
Julianne Moore em Ensaio sobre a Cegueira

Rola uma curiosa polêmica sobre a adaptação de Ensaio sobre a Cegueira para o cinema. Fernando Meirelles teria sido fiel ou não à obra de José Saramago? Como não li o livro até agora (ele repousa em casa, na estante, me esperando), estou livre desse dilema que, parece, tem feito fervilhar blogs e sites de críticos de cinema. Como eles existem aos milhares, isso deve ter provocado uma pequena tempestade sobre a rede.

Bem, hoje fui acertar uma contas no banco, e a gerente me disse o seguinte, enquanto somava minhas pendências: Meirelles foi muito fiel na adaptação. Mesmo assim, ela gosta do livro mas não gostou do filme. Por exemplo, estranhou as ruas e avenidas de São Paulo, que ela conhece tão bem, parecerem pertencer a uma cidade qualquer do mundo, um lugar indeterminado, que seria palco da distopia imaginada pelo autor e pelo cineasta.

Isso disse a gerente. Eu vi o filme há pouco, depois da estréia, quando voltei de viagem. Gostei, sem grandes entusiasmos. Pareceu extremamente bem filmado, o que não é novidade em se tratando de Meirelles. Mas há algo que me incomoda na maneira como manipula as metáforas – e isso, desconfio, vem do livro. São as metáforas desabusadas de Saramago: a península ibérica que se desloca como uma “jangada de pedra”, o supermercado que se torna a caverna de Platão; e, agora, a cegueira contemporânea.

Claro, claro, estamos tão saturados de imagens, informações, desejos, cobiças, palavras – toda essa hiperconcentração da vida contemporânea que, obviamente, nos tornamos cegos, para não dizer surdos e burros. Já não enxergamos mais nada adiante de nossos narizes, ou enxergamos tão mal que é como se nada víssemos. Isso me parece auto-evidente. Óbvio demais, desse modo. Não sei se isso é justificativa mas vou ao cinema em busca de algo que me surpreenda. Que, por assim dizer, abra um clarão nessa cegueira, uma clareira na floresta, se essas não forem, elas próprias, metáforas saramaguianas.

Depois, há a história do não-lugar, que acho uma idéia interessante para ser tratada pelo cinema contemporâneo. Uma cidade que pode ser todas e nenhuma, indefinida em todos os aspectos, porque indefinida é a nossa angústia comum. Pois bem, a de Ensaio sobre a Cegueira não me convenceu muito. Acho que quem acerta no alvo, nesse aspecto, é Ruy Guerra em Estorvo, com sua mistura de Rio e Havana que, no fundo, não é lugar nenhum. Se a tal da angústia contemporânea está em algum lugar, acho que é nesse filme de Ruy, inspirado no romance de Chico Buarque.

Mesmo um modesto comentário é apenas uma tentativa de racionalização, uma busca dos motivos pelos quais uma obra mexeu ou não mexeu com a gente. Tendo a achar que existe alguma coisa de frágil na estrutura de Ensaio sobre a Cegueira. E não tenho certeza de que esse ponto cego (se me permitem…) não esteja nos sucessivos test screenings a que o filme foi submetido. Soube que várias cenas “fortes” foram suprimidas porque chocaram algumas pessoas convidadas para essas sessões prévias. Desconfio demais desse tipo de prática.

Enfim…Voltaremos ao assunto.

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