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Ensaio brilhante sobre a condição humana

Luiz Zanin Oricchio

11 de janeiro de 2010 | 19h44

A história parece simples, banal. Uma mulher vai comprar um par de sapatos e, na saída da loja, é assaltada. Mais tarde, um homem encontra a carteira com documentos e cartões de crédito e a entrega à polícia. A carteira volta à sua dona, que telefona agradecendo a quem a encontrou e devolveu. Mesmo que não queira, o homem torna-se obcecado pela mulher e tenta assediá-la por todos os meios. Eis aí. É só isso? É isso e muito mais. Na verdade, há um mundo inteiro na maneira como Alain Resnais toma esse argumento, tirado de um livro de Christian Gailly, L”Incident.

A maneira (a forma) como lê essa trama pode surpreender um pouco o espectador. Os personagens podem ter reações inesperadas e contraditórias. Georges Palet (André Dussollier) é um burguês bem posto na vida, alguém elegante, mas cujo comportamento pode chegar à truculência por motivos que ignoramos. Margueritte Muir (Sabine Azéma) é uma dentista que apenas deseja se livrar de um homem incômodo e insistente, mas seu propósito não parece tão firme quanto ela crê. E a presença de uma amiga e colega, a bela Emmanuelle Devos, apenas aumenta a eletricidade da situação.

Não se trata de uma ciranda amorosa comum. Resnais diz que pretende mimetizar, no clima do filme, o estilo de Gailly, considerado um escritor minimalista e original. Usa procedimentos de linguagem próprios. Por exemplo, pode interromper uma frase de diálogo ao meio, sem ao menos colocar reticências para prevenir o leitor da quebra. A vida não tem reticências.

Resnais incorpora essa descontinuidade ao comportamento dos personagens. Eles surpreendem. Parecem estranhos e próximos a nós. Porque também vivemos num mundo psicológico fragmentado, sujeito a desníveis brutais, a frases truncadas, a propósitos esquizofrênicos e pouco coerentes.

Resnais, seguindo Gailly, se previne contra qualquer tipo de psicologia. Nada sabemos do passado de Georges, nem daquilo que poderia levá-lo a agir como age. A história nos desabitua de um reflexo genético, o de procurar no passado a explicação automática para o presente, numa relação de causa e efeito. Tudo é mais complexo, mas fingimos não saber. O cinema, em especial, se presta a essa supersimplificação da vida, apresentando-a sob a forma do determinismo.

Ervas Daninhas vai na direção oposta. Temos aqui o acontecer em sua forma bruta. Em meio à extrema inventividade formal de Resnais, o que se confrontam são os dramas do desejo e do envelhecimento, os paradoxos da rotina como forma de segurança, que deve ser quebrada para se tornar suportável. Enfim, alguns dilemas insolúveis da condição humana, colocados na tela com o rigor obstinado de um Beckett, com quem Resnais, de alguma forma, parece dialogar.

Posto sob a forma de paradoxos, Ervas Daninhas não comporta uma explicação linear. Propõe-se como enigma, pleno de sentidos a serem descobertos. Para nossa alegria e estímulo.

(Caderno 2, 11/1/10)

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