Enfim revelado o ‘Pequeno Segredo’
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Enfim revelado o ‘Pequeno Segredo’

'Pequeno Segredo', escolhido pelo Brasil para tentar uma vaga na disputa do Oscar-2017, mostra-se bastante piegas na maneira como conta a história verídica da adolescente Katherine

Luiz Zanin Oricchio

11 de novembro de 2016 | 09h32

segredo

Depois da polêmica, é hora de ver o filme. Logo nas primeiras imagens, Pequeno Segredo não faz jus ao título e entrega logo  seu modus operandi: música ao fundo, vê-se uma borboleta voando sobre o mar. A imagem nada tem, em si, de piegas. Ganha essa característica no contexto proposto. O voo da borboleta é a liberdade, a vida breve porém intensa, que vai para além da morte. O oceano, além de ser o habitat da família Schürmann, é também o símbolo da infinitude, da abrangência, da experiência religiosa. Por isso, os românticos chamavam de “sentimento oceânico” essa percepção difusa de que “existe algo de maior que nós e que nos transcende”. E aí está o filme, já devidamente apresentado e no registro que lhe cabe.

Enfim, passemos por essa metafísica dos sentimentos. A história, já se sabe por tudo o que se falou previamente sobre o filme de Davi Schürmann, é sobre Katherine, ou Kat, a garota adotada pela família de velejadores catarinenses em uma de suas viagens pelo mundo. Por falar nisso, há um documentário interessante sobre a família, O Mundo em Duas Voltas (2007), melhor que este Pequeno Segredo.

Já a história de Kat é contada em planos distintos. Primeiro, vemos o caso de amor entre a paraense Jeanne (Maria Flor) e o neozelandês Robert (Errol Shand). A outra tem como protagonistas o casal Heloísa (Julia Lemmertz) e Vilfredo Schürmann. Heloísa é uma espécie de supermãe de Kat (Mariana Goulart), uma adolescente bonita, que tem os problemas próprios da idade. A terceira, mais precária, fala de uma personagem malvada, que tenta desfazer as linhas costuradas entre as duas primeiras tramas. Como essas narrativas se cruzam, é impossível dizer sem revelar o tal segredo de que fala o título.

É interessante a gente se deter um pouco mais sobre esse ponto. Porque o cruzamento das linhas narrativas não é tão óbvio assim. É costurado com habilidade e exige do público algum tipo de atenção para não se confundir. A ponto de mesmo espectadores experimentados saírem da sessão com aquele tipo de dúvida: “quem é filho de quem, afinal?” Isso para dizer que Pequeno Segredo evita a linearidade, não provavelmente porque certa flutuação no tempo seja essencial para a narrativa, mas porque tal estratégia lhe confere a característica “artística” buscada pelo projeto.

Pretensão, no entanto, desconstruída por toda uma estética praticada ao longo da narrativa: a música onipresente e tonitruante de Antonio Pinto (que, no entanto, já fez ótimas trilhas para outros filmes); personagens chapados e alguns até caricatos, como a avó de Kat, a neozelandesa Barbara (Fionnula Flanagan), pintada como megera, racista, dominadora e ambiciosa. Bem, há uma reconciliação no horizonte, mas tudo, neste projeto, serve a reconciliações. A fotografia, adocicada, faz par com a música. E o elenco não pode grande coisa com roteiro tão óbvio. A exceção é Julia Lemmertz, de fato um violino de classe tocando uma melodia previsível e dando a ela nuances que não constam da partitura original.

Enfim, não há dissonâncias sérias nessa melodia monocórdia, só uma, fundamental e inevitável, porém obra do destino, por assim dizer, e pela qual só se pode lamentar, a morte. O feitio do filme é de ordem melodramática. Fabricado para chorar – essa é sua índole. A história que conta é bonita. Fala de doença, de solidariedade, de amor, de sentimentos. Tudo que faz falta no mundo de hoje. Mas nem sempre histórias bonitas dão bons filmes. Este é um exemplo.

 

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