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Encontro sobre meio ambiente reúne artistas e especialistas

Luiz Zanin Oricchio

18 de novembro de 2007 | 10h05

MANAUS

Um festival sediado na Amazônia não poderia deixar de incluir discussão sobre meio ambiente. E o debate promovido pelo Amazonas Film Festival acabou sendo bem interessante. Realizado quinta-feira no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, reuniu alguns convidados do festival como os diretores John Boorman, Hubert Sauper, Richard Brock e Jean-Jacques Annaud e especialistas na área como o antropólogo Cristian Pio Ávila e Philip Fearside, cientista do Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA) e considerado grande autoridade sobre os problemas da região. O documentarista brasileiro Ricardo Dias (de No Rio das Amazonas) disse ao Estado que, se alguma pergunta sobre a região tivesse de ser feita, que ela fosse endereçada a Fearside, um dos cientistas que fazem parte do IPCC (Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas), que recebeu o prêmio Nobel da Paz, junto com o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, e seu filme Uma Verdade Inconveniente.

Como, por coincidência, no mesmo dia, o próprio portal do Estado estampava como manchete o perigo de savanização da Amazônia até 2080, em razão do aquecimento global, a pergunta foi colocada e Fearside a respondeu. Disse que o relatório da ONU utilizava o mais pessimista dos modelos de previsão, considerando o clima amazônico mais seco e quente do que realmente é. Mas o perigo de savanização é real e se deve aos efeitos do El Niño. Disse também que os governos brasileiros têm a tendência de minimizar a ameaça, como se tudo não passasse de alarmismo de ambientalistas. “O problema é real”, garantiu. “O INPA testou 15 modelos diferentes e a média deles aponta savanização na parte leste da Amazônia”.

O simpósio não reunia apenas ambientalistas, mas também cineastas. Estes discutiram a questão ecológica na representação audiovisual e seus efeitos. Boorman, cujo filme realizado na região, A Floresta de Esmeralda, pode ser lido como manifesto preservacionista, diz que o que eles podem fazer é muito pouco, pois a mensagem cinematográfica se destina a público segmentado. Annaud, que também atuou sobre o tema em filmes como Dois Tigres e O Urso, entende que hoje em dia os produtores são mais sensíveis a mensagens ecológicas, mas que esta, para ser comercial, deve vir sob a forma de “uma boa história, que divirta o espectador”. É a única possibilidade, aliás, de atingir um público maior.
Os debatedores concordaram que, depois do prêmio Nobel da paz atribuído a Al Gore por seu documentário, as coisas ficaram um pouco mais fáceis para cineastas que se ocupam do assunto. Mesmo assim, há problemas.

O britânico Richard Brock, que trabalhou 35 anos na unidade de História Natural da BBC, disse que quando você faz um filme sobre as belezas do planeta, ele vende muito bem. “Quando se fala dos problemas, o público some. No entanto, é preciso lutar contra isso e falar a verdade sobre a Amazônia; é a única maneira de salvá-la.” Com o que concorda Paulo Adário, do Greenpeace, para quem o grande problema da Amazônia é a desinformação. “Precisamos saber a verdade, pois quem irá salvar o mundo será apenas a pressão global sobre quem governa esse mundo, e nesse aspecto tanto a mídia como o cinema têm muita importância.”

A nota original (e radical) do encontro veio do austríaco Hubert Sauper, autor do contundente documentário O Pesadelo de Darwin, sobre desequilíbrio ecológico num lago da Tanzânia. Uma determinada espécie de peixes foi introduzida no lago e acabou com todas as outras espécies. O peixe é comercializado em troca de armas que fomentam as guerrilhas da região. Um desastre total, ecológico e humano.

Sauper disse que não se deve confiar no absoluto das imagens, pois elas podem ser usadas de maneiras diferentes. “Em Bombaim vi num táxi uma foto de um campo de concentração nazista e o motorista disse que aquilo é que tinham de fazer com os paquistaneses”. Uma imagem que deveria ser contra o racismo era utilizada em sentido contrário. Outro exemplo: “uma telenovela brasileira mostra a imagem banal de uma dona de casa loura que tem apenas um filho. Talvez essa imagem boba tenha algum benefício, pois serve de exemplo para o controle da natalidade”. Conclusão: as imagens não têm valor em si. Dependem da maneira como são usadas e como são interpretas. É sua força e também sua limitação.

Disse também que teve problemas com as autoridades da Tanzânia, que viram em O Pesadelo de Darwin, uma ameaça à sua soberania. “Por que tinha de vir aquele branquinho falar dos nossos problemas, era o que diziam”. Contou ainda que os entrevistados do filme foram perseguidos e que ele gastou dois anos de sua vida tentando defender essa pessoas com apoio da Anistia Internacional. “Parece que o problema foi inventado pelo cineasta, para fazer seu filme”, disse.

Sauper concluiu sua fala pulando a bancada e abraçando estátuas de índios que existem no auditório do Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Performático, porém certeiro.

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