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Emir Sader: queda em dois tempos

Luiz Zanin Oricchio

03 de março de 2011 | 18h53

Todos atribuem a queda de Emir Sader (na verdade nem assumiu) da Casa de Rui Barbosa à entrevista concedida à Folha de S. Paulo na qual classificou a ministra Ana de Hollanda de “meio autista”.

Quem assim pensa não está errado. Mas se esquece de que, uma semana antes, Sader havia concedido outra entrevista, bem mais substantiva, a O Globo. Nela, esmiuçava suas propostas para a Casa de Rui Barbosa, pretendendo transformá-la num centro de discussões que daria voz a personagens de esquerda sem vez nos meios de comunicação. Sader desejava ampliar as funções da Casa, tradicionalmente de preservação de acervo, politizando-a.

Esta entrevista não causou o mesmo frisson porque nela Sader não cometeu qualquer impropriedade verbal mais gritante. Quer dizer, não criou nenhuma boutade que permitisse citação fora de contexto e transformação em título chamativo do tipo “Ela é meio autista”.

Pelo contrário, ao invés de formular frases supostamente espirituosas, ocupou-se em defender ideias que devem ter repercutido fundo em setores, digamos, mais conservadores da sociedade.

O pulso dessa repercussão – negativa – pôde ser tomado com mais precisão na blogosfera do que na mídia impressa. Qual a novidade? Todo mundo conhece o passado e as ideias de Sader. E, para quem não conhecia, ele não as escondeu na entrevista a O Globo. Esse ideário é um resumo de tudo o que o pensamento liberal deseja ver morto e enterrado para todo o sempre. E, no entanto, essas ideias voltam, como voltam antigos sintomas, dizia o velho Freud a respeito das neuroses.

Como os sintomas, a queda de Sader deu-se em dois tempos. O primeiro foi o desta preparação de clima na entrevista a O Globo. O segundo, a gota d’água, a entrevista à Folha. Ou, mais precisamente, a frase infeliz dita no contexto da entrevista e que, tirada desse contexto, soou ofensiva.

É bem possível que por trás desse entrevero político estejam antigas discussões, latentes na cultura brasileira e em suspenso desde o final dos anos 1960. De um lado, há os setores mais conservadores e toda a sua ojeriza a qualquer tipo de discussão sobre o progresso social. É o pensamento dominante.

De outro, o confronto entre a velha esquerda mais tradicional e uma “esquerda” que se deseja mais contemporânea do mercado, da publicidade e, agora, da internet. Nos anos 60, essa cisão se deu entre a esquerda tradicional e os tropicalistas – Caetano à frente. O caso emblemático foi seu discurso de ruptura com a esquerda ao ser vaiado durante a apresentação de É Proibido Proibir, em 1968. Uma canção anárquica e libertária num quadro político no qual quem não era de esquerda era de direita.

Agora essa cisão retorna, se a tese procede, no panorama do início do governo Dilma, uma ex-guerrilheira que dá mostras de querer governar sem muitas marolas e sem a brigalhada política que caracterizou o segundo governo Lula. Por exemplo, em setores da blogosfera, Dilma foi criticada por comparecer ao aniversário de 90 anos da Folha, como se, presidente, devesse governar com os blogs e hostilizar os veículos que hostilizaram a candidata. O primeiro dever do político eleito é ser ingrato, dizia a velha raposa Tancredo Neves.

A cisão retorna, com os personagens envelhecidos e algumas ideias parecendo requentadas. Talvez seja interessante lembrar que boa parte daquela esquerda autoproclamada mais moderna virou-se alegremente para a direita e hoje ocupa cargos importantes no jornalismo ou exerce a função de intelectual a serviço do conservadorismo. Alguém, algum dia, teria de refletir a fundo sobre esse estranho fenômeno brasileiro: como o trotskismo de juventude pode servir de base para o pensamento de direita extremado da maturidade.

Enfim, essas discussões estão aí vivas e, ao que parece, a Casa de Rui Barbosa, em sua quietude secular, foi apenas o polo em torno do qual elas se manifestaram, ainda uma vez.

Assume agora o sociólogo Wanderley Guilherme dos Santos, um quadro tão qualificado quanto Emir Sader. Que tenha a sabedoria da discrição. Para realizar as coisas, no Brasil, convém medir as palavras. Melhor fazer do que falar.

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