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Em São Paulo S.A., um mundo que já é (quase) o nosso

Luiz Zanin Oricchio

26 de abril de 2007 | 11h39

Filme de Luis Sérgio Person sai em DVD e mostra a fragmentação da sociedade paulistana na virada dos anos 50 para os 60

É claro que o título é já um ovo de Colombo – uma dessas obviedades que fazem o sujeito dizer para si: como não fui pensar nisso antes? São Paulo S.A. – a ‘sociedade anônima’ da cidade grande, que é como se define este que é o melhor trabalho de Luis Sérgio Person (1936-1976), um dos grandes filmes da história do cinema brasileiro. Como jogar na tela a relação do homem alienado com uma sociedade que ele no fundo não compreende e o oprime? Como juntar, no mesmo plano, tanto a questão existencial como a política, deixando de lado separações didáticas e, portanto, falseadas? Estas devem ter sido as questões que afligiram Person ao pensar em seu projeto. A maneira como as solucionou pode ser vista agora em DVD, de excelente qualidade técnica, lançado pela Videofilmes (R$ 45,90).

Person precisava criar um personagem como Carlos (Walmor Chagas), ambicioso, atormentado, completamente impregnado de um certo ethos da cidade (que, como dizia o jargão da época, era a que ‘mais crescia no mundo’). Ao mesmo tempo, um produto da cidade e seu prisioneiro. Louco para livrar-se da prisão e condenado, por si mesmo, a nela permanecer. Um filme de impasses, dilacerado, de rupturas que não se resolvem.

Apenas para situar um pouco a trama: Carlos é visto através de suas relações com três mulheres, Hilda (Ana Esmeralda), Ana (Darlene Glória) e Luciana (Eva Wilma). Cada uma delas pode ser considerada como um tipo. Ana, a fogosa; Hilda, a angustiada; Luciana, a esposa. Carlos é um empregado que resolve se dar bem na vida. Por isso se associa ao pouco escrupuloso empresário de autopeças Arturo (Otelo Zeloni). A época: São Paulo de 1957 a 1961, durante o boom da indústria automobilística paulista. A modernidade industrial chegando nas asas do otimismo dos anos JK com a ideologia do desenvolvimentismo, pano de fundo de todo o cinema de vanguarda dos anos 60 (veja texto ao lado). Fome de modernidade, que expõe tanto as possibilidades como as carências do País e seu povo.

São Paulo S.A. constrói seus problemas de forma fragmentária. A estrutura temporal é bastante complexa, com o filme começando pela ruptura de um casal, Carlos e Luciana, e evoluindo por um longo flash-back. Mas, mesmo no interior do flash-back, não há linearidade. Os tempos várias vezes se sobrepõem, e não por gosto do diretor pelo complexo, mas porque a fragmentação mental do personagem assim o exige. O ‘conteúdo’ se encontra pelo trabalho da forma.

Notável é a câmera de Ricardo Aronovich, sem a qual não se teria esse filme. Digno de nota também é o diálogo com a nouvelle vague e, com certeza, com o cinema da incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni. O Fellini de A Doce Vida também deve ter entrado na cogitação de Person. O retrato daquele mundo dilacerado – que já é o preâmbulo do nosso – pedia todo esse leque de diálogos com o melhor cinema de sua época. A sociedade já parecia tão desagradável como agora; a arte era melhor.