Em ‘Sangue do Meu Sangue’, a moral dúbia do poder e da Igreja
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Em ‘Sangue do Meu Sangue’, a moral dúbia do poder e da Igreja

Luiz Zanin Oricchio

07 Dezembro 2016 | 13h58

Sangue do meu Sangue. A dupla moral da Igreja

Sangue do meu Sangue. A dupla moral da Igreja

Sangue do meu Sangue é uma obra em dois tempos.

A primeira se passa no século 17, quando um nobre, Federico Mai (Pier Giorgio Bellocchio), tenta obter consentimento da Igreja para que seu irmão, suicida, possa ser enterrado em campo consagrado.

A segunda tem por cena os dias atuais, quando um velho mosteiro, habitado por um nobre solitário (Roberto Herlitzka), é alvo de cobiça de um especulador russo (Ivan Franek), ciceroneado por um funcionário do governo corrupto (Pier Giorgio, de novo).

As duas cenas, separadas por quatro séculos, têm o mesmo palco – Bobbio, a pequena cidade natal do cineasta Marco Bellocchio.

O local não é indiferente. Bellocchio nasceu em Bobbio ( província de Piacenza), cuja população atual é de 3.800 habitantes. Saiu para estudar, fez o mundo, tornou-se contestador e famoso. Sua família ficou por lá, incluindo as irmãs, Letizia e Maria Luisa, que interpretam pequenos papéis em quase todos os filmes recentes do diretor. Bellocchio volta todos os anos a Bobbio durante o verão e lá comanda um laboratório chamado Fare Cinema (Fazer Cinema). Orienta cineastas jovens, escrevem roteiros, filmam. Fazem filmes. O longa recente Irmãs Jamais (Sorelle Mai) é um dos frutos contemporâneos dessa atividade. Sangue do meu Sangue é outro. A cidadezinha é ainda o laboratório espiritual do grande cineasta.

Até há relativamente pouco tempo, Bellocchio achava que Bobbio, tal como outras pequenas comunas italianas, tinha caráter um tanto autárquico. Bastavam-se a si próprias, independentes em relação ao país e, claro, ao mundo. Com a globalização, isso mudou e nada nem ninguém pode se dizer de fato isolado, para o bem e para o mal. Bobbio não é exceção.  

Na primeira parte, vemos essa sociedade fechada sobre si mesma e sujeita ao poder arbitrário da Igreja associada ao Estado. A questão central é extrair de Rafaella (Lidiya Liberman) a confissão de pacto com o demônio. Seria assim uma bruxa que teria seduzido o frei suicida, portanto o inocentando do ato e permitindo que seus restos sejam depositados no campo santo, para alívio de todas as boas consciências, em especial a da senhora mãe de Federico Mai.

Como se sabe, a Igreja dispunha de métodos bastante convincentes para arrancar confissões e os aplica com denodo sobre o corpo da pobre Rafaella. Enquanto espera pelo trabalho dos inquisidores, Federico hospeda-se na casa de duas pias irmãs (Alba Rohrwacher e Federica Fracassi). Vivendo sob o mesmo teto, o trio experimenta o aumento da temperatura erótica, da tensão sexual negada e reprimida pela Igreja. E, quanto mais reprimida e negada, mais intensa, como se sabe.

Nos tempos atuais, as questões são outras. O dinheiro manda e outros poderes se impõem, enquanto os velhos senhores arrastam correntes e se deslocam nas sombras, como fantasmas, ou como o vampiro vivido por Herlitzka (intérprete de Aldo Moro em Bom Dia, Noite). Precisam sugar o sangue da juventude para manter-se vivos.

Há uma cena interessante, em que essa velha guarda do poder em Bobbio se lamenta de que tudo esteja se alterando. Sente saudades de um tempo em que o crime e a corrupção eram tolerados em nome de uma certa estabilidade do corpo social. Este funcionaria lubrificado por essa tolerância e, ao final das contas, todos, do poderoso ao mais humilde, seriam atendidos pelo sistema. Com cotas desiguais, claro.

O filme tem então tematizadas algumas das referências e preocupações centrais do cineasta, suas reflexões acerca do poder despótico, da falsa moral em relação ao sexo, dos desvios do poder e da hipocrisia que sempre ronda os reformistas. São temas que atravessam séculos e chegam intactos à nossa era. Não apenas na Itália, mas em toda parte.

A costura entre os dois tempos é sutil e fluida. A ousadia ao dialogar com o cinema de gênero compensa pela estranheza depositada nos personagens, sobretudo no conde vampiro. Bobbio mistura como mestre o tom realista e pitadas de fantástico. As ideias políticas e existenciais são expressas sem qualquer imposição, porque se encontram implícitas na trama e não precisam ser exibidas com didatismo. Em Sangue do Meu Sangue, Bellocchio, para variar, faz grande cinema.

Cotação: ótimo

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