Em Paris
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Em Paris

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2007 | 19h57

paris

Não é difícil entender a predileção da Cahiers du Cinéma pelo cineasta Christophe Honoré. Tudo, em seu cinema, parece reviver uma época de ouro do cinema francês, a nouvelle vague, cujos diretores, então iniciantes, trabalhavam como críticos na própria revista. Há um deles, entre todos, que parece ser citado a cada plano por Honoré – o grande François Truffaut, o homem que talvez tenha filmado a vida amorosa com maior intensidade e maior leveza, não vendo nesses termos qualquer contradição.

O filme conta as histórias de amor vividas por dois irmãos, Paul (Romain Duris) e Jonathan (Louis Garrel), que voltam a morar juntos na casa de um pai deprimido, que se recusa a sair do quarto. É quase desnecessário dizer que, também como em outros filmes da nouvelle vague (em especial a seqüência de Truffaut sobre seu heterônimo, Antoine Doinel), neste, Paris comparece como um personagem à parte. A cidade não é um mero entorno, um quadro sem vida no qual os acontecimentos tomam o primeiro plano, mas como que interage com eles, e, em boa medida, determina seus destinos. Mas de uma forma amigável, não como o trágico destino dos gregos.

Para personificar sua saga pessoal, da infância à idade adulta, Truffaut encontrou e elegeu um ator – Jean-Pierre Léaud. Não parece uma coincidência que Garrel se pareça bastante com Léaud quando jovem, e não apenas fisicamente. Filho de um diretor da nouvelle vague, Philippe Garrel, Louis Garrel lembra Léaud também na maneira como encarna o personagem ora melancólico ora cômico que lhe coube. É quase um ‘espírito’ nouvelle vague que retorna às telas e mesmo na economia da produção, tornada possível porque o produtor português Paulo Branco resolveu financiá-la. Cabe lembrar que, até há pouco, Branco era responsável pelas ‘loucuras’ de Manoel de Oliveira, aqueles filmes maravilhosos mas que não se sabia como poderiam se pagar no mercado. Agora, Branco resolveu apostar no cinema francês e escolhe esse cineasta, que não apresenta as mesmas dificuldades para o público médio que um Manoel de Oliveira, mas, mesmo assim, parece longe de ser ‘comercial’ no sentido mais comum do termo.

E, no entanto, Em Paris é um tipo de filme que pode cativar uma platéia mais ampla. Isso porque Honoré se mostra capaz de transmitir uma idéia de familiaridade, um intimismo raro de obter no cinema. Não apenas em relação à cidade, mas nas cenas rodadas nos interiores, em especial entre os irmãos, mas também entre o pai, Guy Marchand, e a mãe, Marie France Pisier, na cozinha, preparando uma comida, conversando sobre assuntos aparentemente banais. É algo que se visava desde sempre no cinema, captar ‘a vida como ela é’, em seus pequenos detalhes. A vida ‘banal’, mas cuja essência mesma se revela nas coisas pequenas, nos assuntos do dia-a-dia, em palavras trocadas entre um velho casal separado, entre pessoas que se conhecem bem demais para poderem mentir uma à outra.

A impressão de leveza e sinceridade que se tem com Em Paris nos traz de volta aquele grande cinema francês dos anos 60 e 70, mas sem qualquer traço de nostalgia.

(Caderno 2, 28/12/07)

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