Em noite de emoção e política, ‘Benzinho’ vence o GP Brasil de 2019
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Em noite de emoção e política, ‘Benzinho’ vence o GP Brasil de 2019

Entrega do principal prêmio do cinema brasileiro foi uma demonstração de força da cultura nacional

Luiz Zanin Oricchio

15 de agosto de 2019 | 13h03

O diretor Gustavo Pizzi agradece o prêmio

 

 

Em noite de política e muita emoção, Benzinho, de Gustavo Pizzi, ficou com os principais troféus Grande Otelo do 18º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. 

Na cerimônia realizada no Theatro Municipal de São Paulo, além de melhor filme, Benzinho ganhou os prêmios de direção, atriz, atriz coadjuvante, roteiro original e montagem de ficção. 

Bem na fita também esteve O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues, concentrando-se mais nas categorias técnicas: fotografia, roteiro adaptado, direção de arte, figurino, maquiagem, efeitos visuais. 

O mais indicado, com 12 menções, Chacrinha – o Velho Guerreiro, de Andrucha Waddington, acabou confirmando apenas três troféus, ator, som e longa de ficção (voto popular). 

Dado o calor do momento político, esperava que o melhor documentário fosse O Processo, de Maria Augusta Ramos, sobre o golpe de 2016. Mas o júri preferiu o excelente e também oportuno Ex-Pagé, de Luis Bolognesi, sobre a interferência de igrejas evangélicas na cultura indígena. 

Premiação à parte, a cerimônia foi um ato de afirmação do cinema brasileiro frente às ameaças do governo federal. Gritos de “fora, Bolsonaro!” se ouviram desde o início da sessão (mas houve um “fica, Bolsonaro”, vaiado). Mesmo os discursos dos políticos, em geral anódinos, foram fortes. Laís Bodanzky, que faz excelente gestão frente à SPcine, foi a mais aplaudida. O prefeito paulistano, Bruno Covas, saiu-se bem ao dizer que ninguém seria discriminado em São Paulo por suas opções ideológicas. Criticou o presidente: “essa história de ‘filtro’ tem um nome e ele é censura”. Alusão à fala de Bolsonaro de que iria extinguir a Ancine caso não fosse possível aplicar “filtros” morais aos projetos selecionadas para financiamento. 

Esse é o ponto fundamental. A comunidade cinematográfica divide-se entre os que acham que se deve dialogar com o governo e os mais radicais. No entanto, fazer discriminação sobre conteúdo de obras é inaceitável. Como disse o prefeito, isso é censura e censura não se negocia. Enfrenta-se. 

Bolognesi fez um discurso contundente. Acusou o governo de defender apenas a cultura judaico-cristã, esquecendo-se que a cultura brasileira é uma mescla ameríndia e afro-americana. “Mais da metade da população brasileira é de afrodescendentes. Vamos ignorar essas raízes culturais?”, disse. A fala é um lembrete daquilo que mais caracteriza a cultura brasileira – a mescla, a profusão de raízes e influências. Quem for em busca de uma “essência” brasileira, quebra a cara, inevitavelmente.

Outro discurso forte da noite foi do ator Stepan Nercessian, premiado como melhor ator por sua incrível caracterização de Chacrinha. Dedicou o troféu a colegas desempregados e a todos desempregados do país. Mas, no final, estendeu a dedicatória a “a qualquer imbecil, a todos os estúpidos, canalhas e cretinos que não entendem absolutamente nada do que quer dizer cinema brasileiro.” No meu entender, pela precisão e contundência, foi a grande fala da noite. 

Havia, então, esse sentimento de indignação diante de um governo de vocação despótica e ignorante. Mas, ao mesmo tempo, uma emoção quase eufórica pairava pela atmosfera do velho teatro paulistano. Ela se devia por certo à temática da noite e à maneira como foi conduzida: a união entre a música popular e o cinema. 

Ao longo das 4h30 de cerimônia, vimos e ouvimos parte do que de melhor a cultura brasileira produziu ao longo de décadas. Cenas de filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Eu Te Amo, Dona Flor e seus Dois Maridos, Brasil Ano 2000, Tieta e músicas de Tom Jobim, Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Caetano Veloso e outros…Altíssimo nível. 

A homenagem a João Gilberto, um dos mortos do ano, foi tocante, com a interpretação de Chega de Saudade, que revolucionou a música popular brasileira. Assim como foram emocionantes as homenagens a Ruth de Souza, Domingos Oliveira e outros grandes artistas que se foram este ano, mas nos deixaram grandes obras como herança. 

A grande homenageada do ano foi Zezé Motta, dublê de atriz e cantora, com participação em mais de 40 filmes e vários discos gravados. A intérprete inesquecível de Xica da Silva, de Cacá Diegues, recebeu seu Grande Otelo e agradeceu interpretando, à capela, o inspirado samba Minha Missão, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Foi aplaudida de pé. 

A cerimônia teve, a meu ver, esse lado de pajelança, para afastar maus espíritos. Mas, também e principalmente, foi uma afirmação da cultura brasileira, em sua excelência, criatividade e representatividade popular. Ela é forte demais para ser aniquilada pela vontade de meia dúzia de boçais, por mais poder que momentaneamente tenham. Eles passarão. Ela sobreviverá e sairá ainda mais forte dessa situação de ameaça. 

Sobreviveremos. 

 

OS VENCEDORES

 

. “Benzinho” – melhor filme, diretor (Gustavo Pizzi), atriz (Karine Teles), atriz coadjuvante (Adriana Esteves), roteiro original (Karine Teles e Gustavo Pizzi), montagem (Lívia Serpa)

 

. “O Grande Circo Místico” – melhor fotografia (Gustavo Hadba), roteiro adaptado (Carlos Diegues e George Moura), figurino (Kika Lopes), direção de arte (Artur Pinheiro), maquiagem (Catherine Leblan Caraes e Emmanuelle Fèvre), efeitos especiais (Marcelo Siqueira e Thierry Delobel)

 

. “Chacrinha” – Juri Popular. Melhor ator (Stepan Nercessian), som (Jorge Saldanha, Armando Torres Jr, Alessandro Laroca, Eduardo Virmond Lima e Renan Deodato)

 

. “Ex-Pajé” – melhor documentário

 

. “DPA 2 – O Mistério Italiano” (Viviane Jundi)- melhor filme infantil

 

. “Minha Vida em Marte” (Suzana Garcia) – melhor comédia

 

. “Peixonautas” (Célia Catunda e Kiko Mistrorigo) Menção honrosa como melhor longa de animação)

 

“O Órfão” (Carolina Markowicz) – melhor curta ficção

 

. “Cor de Pele” (Lívia Perini): melhor curta doc

 

. “Lé com Cré” (Cassandra Reis): melhor curta animação

 

. “Todos os Paulos do Mundo” – melhor montagem doc (Gustavo Ribeiro e Rodrigo Oliveira)

 

. “O Nome da Morte” (Henrique Goldman): melhor ator coadjuvante (Matheus Nachtergaele)

 

. “My Name is Now” (Elizabete Martins Campos) – melhor filme pelo Juri Popular, melhor trilha sonora doc (Elza Soares e e Alexandre Martins)

 

. “Paraíso Perdido” (Monique Gardenberg) – melhor trilha sonora ficção (Zeca Baleiro)

 

. “Uma Noite de 12 Anos” (Álvaro Brechner, Uruguai)- melhor filme ibero-americano pelo juri oficial e pelo juri popular.

 

. “Infiltrados na Klan” (Spike Lee, EUA) : melhor filme estrangeiro (juri oficial)

 

. “Nasce Uma Estrela” (Bradley Cooper, EUA ) – melhor filme estrangeiro (Júri Popular)

 

. SÉRIES DE TV:

 

. “Inhotim, Arte Presente” – melhor série documental

 

. “Irmão do Jorel” – melhor série de animação

 

. “Escola de Gênios” – melhor série ficcional

 

 

 

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