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Em Lost Zweig, o avesso do mito do país do futuro

Luiz Zanin Oricchio

07 Maio 2007 | 14h08

Stefan Zweig esteve aqui em 1936 e da experiência nasceu o livro Brasil, País do Futuro. Anos depois, Zweig voltou, em companhia da mulher, Lotte. Judeus, fugiam do nazismo e desembarcaram no Estado Novo de Getúlio Vargas. Em ato até hoje inexplicado, o casal se suicidou em sua casa, em Petrópolis. Dessa história, trágica, o jornalista Alberto Dines tirou seu Morte no Paraíso que, por sua vez, foi levado ao cinema pelo diretor Sylvio Back.

O filme, uma produção cara para padrões brasileiros, ficou pronta 4 anos atrás. Concorreu e ganhou prêmios em alguns festivais de prestígio, como o de Brasília e o Cine Ceará. O fato de somente agora ser lançado mostra, mais uma vez, que existe um abismo entre a produção de um filme e a possibilidade do seu lançamento comercial.

A história de Zweig e Lotte é contada sob a forma de uma co-produção. Back foi buscar na Áustria a dupla de atores para interpretar o casal trágico. Dois excelentes atores, diga-se. Rüdger Vogel e Ruth Rieser vivem um par taciturno, como se imagina seja um casal que traz nas costas o fardo de uma guerra e precisa suportá-lo nos trópicos brasileiros.

Lost Zweig – esse é o título do filme – se sustenta bem na ambientação. Usa um ritmo lento, pausado, mas de estrutura não linear. Por exemplo, logo na metade do filme já vimos que Zweig e Lotte foram encontrados na cama do casal em Petrópolis, envenenados. Mas, depois dessa morte, há ainda mais uma hora de filme a ser vista, na qual acompanhamos a nada feliz segunda estadia de Zweig no Brasil.

Stefan Zweig pretendia que o governo brasileiro fornecesse vistos para judeus ameaçados pelo nazismo, que poderiam, assim, abrigar-se no País. Getúlio hesitava em concedê-los, mesmo porque ainda praticava sua política pendular em relação à Alemanha e aos Estados Unidos. Zweig se angustiava, pois a cada dia que passava maiores eram as ameaças à vida de quem ficara na Europa.

E havia também a pendência dos vistos do próprio Zweig e de Lotte. Segundo o filme, a permanência definitiva no Brasil poderia ser obtida caso Zweig consentisse em escrever uma biografia elogiosa de Santos Dumont. Enfim, a política nacionalista e ufanista do Estado Novo sugeria que, caso Zweig usasse sua pena para elogiar o País, poderia permanecer nele. Os encontros de Zweig com Getúlio e com o chefe do Gabinete Civil, Lourival Fontes, são bastante conclusivos quanto a essa exigência.

É uma teoria. O duplo suicídio teria como causa imediata essa pressão insuportável, pois Zweig não manifestava desejo de escrever nem sobre Santos-Dumont e muito menos assinar um País do Futuro 2, possivelmente porque já não tivesse visão tão idealizada quanto a da primeira visita.

Back toma ainda outras liberdades, como aproximar Zweig do cineasta Orson Welles, que também se encontrava no Brasil filmando um documentário que ficou inconcluso – It’s All True. Segundo Sylvio Back, Grande Otelo, que com Herivelto Martins serviu de cicerone a Welles pelos botecos e pela noite cariocas, disse que o diretor americano carregava debaixo do braço um exemplar de País do Futuro e desejava realizar uma entrevista com Stefan Zweig. Quando Zweig se suicidou, Welles deu declaração dizendo-se arrependido de não ter ido a Petrópolis para conversar com o escritor.

Desses dados biográficos, intercalados com passagens de ficção, fica um drama sólido dirigido por Sylvio Back. A solidez não impede que se torne às vezes pesado e solene. E nem que deixe de provocar certo mal-estar ao adotar o inglês como idioma oficial. Certo, Zweig era um austríaco culto e poderia utilizar o inglês para comunicar-se em país onde o alemão é falado e compreendido por pouca gente. Mas é menos aceitável que se comunique em inglês fluente com uma funcionária dos Correios que adota como amante. E, muito menos, que mantenha em inglês a conversação com Lotte, afinal tão austríaca como ele. Na intimidade, casais falam em seu próprio idioma.

Lost Zweig é mais uma discussão levada pelo cinema sobre o relacionamento entre estrangeiros e o Brasil. Tema interessante, pois diz respeito à nossa identidade e, portanto, à nossa insegurança. ‘O que eles pensam de nós?’, é a pergunta do brasileiro. E a resposta de Stefan Zweig e Lotte não poderia ser mais incisiva. Para eles, talvez o Brasil não fosse mais um país maravilhoso para se viver, mas era ideal para se morrer.

(SERVIÇO)
Lost Zweig (Br/2004, 114 min.) – Drama. Dir. SylvioBack. Com Rüdiger Vogler, Ruth Rieser, Ney Piacentini. 12 anos. Unibanco Arteplex4 – 14 h, 16h30, 19 h, 21h30 (sáb. também 23h40). Cotação: Regular