Em Gramado, a emoção de ‘Elis’
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Em Gramado, a emoção de ‘Elis’

Luiz Zanin Oricchio

28 de agosto de 2016 | 10h19

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GRAMADO – Desconfio que quem acompanhou a carreira de Elis Regina ao vivo ficou mais comovido que o resto do público com a cinebio da cantora dirigida por Hugo Prata. Elis é interpretada por Andréia Horta, com uma semelhança que às vezes chega a causar desconforto. Mas o filme tem qualidades para atingir a todos. 

As etapas da carreira de Elis foram reconstituídas, com a síntese exigida pela duração de um longa-metragem. As tentativas de início de carreira no Rio, quando conhece Miéle e Bôscoli (com quem viria a se casar), o empresário Marcos Lázaro, o sucesso rápido com Jair Rodrigues, as músicas de festival (Arrastão, Upa Neguinho), o êxito, os fãs, o casamento com César Camargo Mariano, os filhos, os problemas com o regime militar, e com a esquerda que se considera traída quando ela é obrigada a cantar numa cerimônia de milicos, os problemas com as drogas e o fim trágico. Tudo está lá.  

E Tudo num looping, em vertigem, como acontece quando se acomoda uma grande (porém breve) vida em pouco mais de hora e meia de filme. Desse modo, talvez seja inevitável passar por cima de temas e situações que mereceriam mais aprofundamento. A compensação vem com números musicais inteiros, nos quais brilha o talento de Andréia ao incorporar (o verbo é esse) os tiques, o gestual, o sorriso, a aura de Elis.

Dos pecadilhos, o final é o maior. Não vou contar, claro, mas talvez um desfecho diferente tivesse maior impacto para esse filme emocionante em todos os outros sentidos. A interpretação de Andréia é arrebatadora e vai ser difícil desbancá-la ao longo de um festival ainda mal começado.

Já o segundo concorrente da noite, O Roubo da Taça, de Caito Otiz, me pareceu uma comédia bem sem graça. Ela se inspira no famoso desaparecimento da Copa Jules Rimet da sede da CBF em 1983. O Brasil a havia conquistado em definitivo no México, em 1970. Era nosso maior triunfo, o símbolo supremo do outrora melhor futebol do mundo, a taça das taças. Feita de ouro maciço para a primeira Copa do Mundo, foi roubada por pequenos marginais, vendida e derretida. O país que a conquistou em definitivo a aniquilou.

Tem coisas que só acontecem no Brasil. A taça exposta deveria ser uma réplica. Mas, por algum motivo, a réplica foi colocada num cofre de segurança e a original ficou exposta. Havia um vidro blindado a protegê-la, mas esse vidro estava fixado em uma precária moldura com pregos, removíveis com facilidade. Se mambembes eram os ladrões, mais mambembes ainda eram os detentores da taça. Esse é o Brasil. Essa incompetência é a tragédia brasileira, ou uma delas.

Toda essa trapalhada é uma piada pronta – com travo amargo. Mas bons pontos de partida não dão, necessariamente, bons filmes. O estilo adotado por O Roubo da Taça é o da comédia gritada, com pé no grotesco, que rende alguns momentos isolados de graça mas, no todo, parece tediosa. Não se trata de impressão tão subjetiva como parece. Foi recebida friamente pelo público remanescente no Palácio dos Festivais. Era o segundo longa, e a segunda sessão sempre esvazia.

O homenageado da noite foi o ator Tony Ramos. Simpático, caloroso, humilde, causa sempre boa impressão. É um ator popular, que faz questão de se dizer movido pelo métier. Atua em TV, teatro, cinema e até no picadeiro já esteve. Uma vida dedicada ao ofício.  

 

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