Em Busca de Anselmo traz a história do maior traidor da esquerda brasileira
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Em Busca de Anselmo traz a história do maior traidor da esquerda brasileira

Luiz Zanin Oricchio

22 de abril de 2022 | 20h16

Já estão no ar os dois primeiros episódios da série Em Busca de Anselmo, sobre o maior traidor da esquerda brasileira, o cabo José Anselmo dos Santos. 

Depois de liderar a revolta dos marinheiros, um dos estopins do golpe de 1964, Anselmo foi preso. Em fuga suspeita de um presídio do Alto da Boa Vista, ganhou a liberdade. Foi enviado a Cuba para treinamento militar na guerra de guerrilhas. Seu destino era o foco guerrilheiro no Caparaó. Este foi dizimado pela repressão, antes que Anselmo pudesse se juntar ao grupo. De volta ao Brasil, clandestino, foi novamente detido e, em troca da liberdade, tornou-se infiltrado da repressão em grupos de esquerda. Nessa condição, foi responsável por dezenas de mortes, inclusive a da própria esposa, Soledad Barret, da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), que estava grávida. Soledad morreu, junto a outros guerrilheiros, em uma tocaia armada por Anselmo em Pernambuco, em 1973.

Alguns militantes acreditam que Anselmo era já um agente infiltrado mesmo no tempo da revolta dos marinheiros. Seria um agent provocateur, hipótese a não ser descartada. Mais provável é que teria mudado de lado para escapar da tortura e da prisão no retorno de Cuba ao Brasil. Sua visão dos fatos é de que foi mais vítima que vilão. Teria se decepcionado com a esquerda armada e sua atividade de delator e infiltrado teria, na verdade, contribuído para poupar vidas e não para ceifá-las. Ele parece ser o único defensor dessa tese.   

De qualquer forma, esta é uma história escabrosa, esclarecedora do passado recente do país. Os dois primeiros capítulos são bem interessantes. Além de entrevistas com Anselmo em sua cidade natal, em Sergipe, são ouvidos vários dos seus ex-companheiros. Ou daqueles que se achavam seus companheiros. Jornalistas como Flávio Tavares e Percival de Souza são entrevistados, assim como o historiador Daniel Aarão Reis, entre muitos outros. Um destaque é o depoimento da filha de Soledad, fruto de relacionamento anterior da mãe com um militante.

Com a redemocratização, Anselmo andou um tempo na muda, escondido atrás de um codinome e documentos falsos providenciados na época da ditadura por ordem de Fleury.

Percival de Souza, um especialista em jornalismo policial, é autor do livro Eu, Cabo Anselmo. Mostrando fortaleza de estômago, o jornalista assina também a biografia do famigerado Sérgio Paranhos Fleury, chamada, apropriadamente, de Anatomia do Medo. Aliás, foi pesquisando para essa obra que Percival conseguiu avistar-se com Anselmo e entrevistá-lo. Resolveu dedicar um livro exclusivo ao agente duplo. 

 Nos anos recentes, Anselmo saiu da moita. Escreveu seu própria livro, com versão própria dos fatos. Deu entrevista ao programa Roda Viva, na TV Cultura, e chegou ao cúmulo de reivindicar indenização do Estado por ter sido “perseguido” na época da ditadura. Morreu no mês passado e foi enterrado em Jundiaí com um dos nomes de fantasia usados durante seu tempo de atuação como infiltrado e delator. Não possuía mais documentos com seu nome real. 

A sua é uma história inacreditável, que só  poderia ser ambientada numa época de ditadura militar, em meio às atrocidades e comportamentos aberrantes de que se nutre esse tipo de regime. Em tempos de ameaças à democracia, a série torna-se obrigatória. Serve de advertência para incautos, nostálgicos do terror e saudosistas de um tempo que não viveram. 

A série tem boa utilização de material de arquivo para contextualizar a época, com imagens pouco vistas. Conta com cinco episódios, um a cada semana. Os anteriores continuam disponíveis. 

Na HBO MAX

 

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