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Em Brasília

Luiz Zanin Oricchio

18 de novembro de 2008 | 19h05

Já cheguei, estou no Hotel Nacional, há tantos anos sede do festival. Esse hotel tem um charme discreto, como seu homônimo de Havana. Podem não ser os melhores do mundo em termos de acomodação, serviço, etc. Mas outros, talvez mais eficientes, perdem de goleada no quesito clima, evocação de antigas lembranças, pequenas nostalgias, paredes e tetos testemunhos de passagens e personagens históricos – enfim, todos esses bens impalpáveis da memória humana.

Mas chega disso. Daqui a pouco sigo para o Teatro (também) Nacional para a abertura, com orquestra e, depois, a cópia restaurada de São Bernardo, de Leon Hirszman, adaptado de Graciliano Ramos. Livro de um escritor comunista, interpretado por um cineasta idem, em 1973. Que tempos aqueles, hein? E, no entanto, pelo que me lembro, o filme nada tem de tacanhamente ideológico, no mau sentido do termo. É apenas melancólico e reflexivo em sua descrição do casamento de Paulo Honório (Othon Bastos) e Madalena (Isabel Ribeiro). Honório e Madalena, consumidos pela ambição do marido, por seu materialismo vulgar e sem limites. O que ainda nos pode dizer esse filme, a nós, passageiros de um tempo de consumismo absurdo e sem remorso? Será que suas “mensagens” se reatualizam em face dos desdobramentos da crise?

A trilha sonora é, sabe de quem? Caetano Veloso, carregando no experimentalismo. Dizem que os estudos feitos para São Bernardo o levaram a Araçá Azul, seu disco de maior risco estético. Veremos. E ouviremos.

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