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Em Antônia, a música como salvação

Luiz Zanin Oricchio

10 Fevereiro 2007 | 13h11

A periferia está na fita? Parece que sim. E não apenas na fita propriamente dita como na telinha da TV. Cidade de Deus virou Cidade dos Homens e Antônia, o filme que estréia hoje, já teve um desdobramento prévio como minissérie, tudo isso na Globo. Na verdade, a série, que ganhará novos episódios, tem uma história que começa dois anos depois daquela mostrada no filme, que entra hoje em circuito com 124 cópias.

Não é exatamente um lançamento pequeno mas talvez ele não acontecesse com essa dimensão em outros tempos. Afinal, é a história de quatro mulheres negras que batalham um espaço social para viverem da sua música. Preta (Negra Li), Barbarah (Leilah Moreno), Mayah (Quelyah) e Lena (Cindy) vivem no pouco aprazível bairro da Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo. Ganham uns trocados fazendo backing vocals para conjuntos masculinos de rappers mas pretendem seguir trajetória própria. São apoiadas pelo empresário Marcelo Diamante (o rapper Thaíde, uma figuraça)e terão de enfrentar muitas dificuldades para converter o sonho em realidade. Se é que o tornarão, pelo menos da maneira como o haviam projetado.

Em seu terceiro longa-metragem, Tata Amaral tenta, mais uma vez, esmiuçar a alma da sua cidade e do Brasil contemporâneo. No primeiro, o festejado Um Céu de Estrelas, fala da classe média baixa e do amor terminal de uma cabeleireira e um operário desempregado. No segundo, Através da Janela, o foco é o relacionamento entre a mãe enfermeira e o filho um tanto desorientado. Agora, Tata se afasta ainda mais do centro do sistema e vai em busca das classes populares, maioria neste universo de mais de 11 milhões de pessoas que é São Paulo. É também o fecho de uma trilogia sobre mulheres: a adulta em Um Céu de Estrelas, a da terceira idade em Através da Janela, a jovem em Antônia.

Talvez essa opção de foco feminino explique por que tanto nos filmes anteriores como em Antônia os homens apareçam em papéis tão pouco marcantes, com exceção de Marcelo Diamante, o ’empresário que não é bijuteria’ segundo sua autodefinição marqueteira. Quanto aos outros, não passam de maridos ciumentos, gente briguenta e egoísta. As mulheres parecem sós diante de um mundo masculino e hostil. E pode ser que seja assim mesmo. Na história, por exemplo, Preta rompe com o marido e decide sustentar sozinha a filha do casal. Já Lena, que deseja ter um filho, tem de se submeter à chantagem do marido e é obrigada a deixar de cantar no grupo. Homens…

Eles funcionam como obstáculos para o funcionamento do grupo, mas Antônia não é um filme de registro trágico e nem sequer queixoso. Prefere representar as personagens como meninas que vão à luta e, se conseguem resolver seus problemas, é apenas à custa de muito esforço e perseverança. Há um Brasil que pode dar certo por aí e o filme consegue exaltar as tais ‘pessoas que correm atrás dos seus sonhos’ de uma maneira que essa frase não pareça o clichê habitual.

Não esconde também a precariedade honesta da vida das meninas, moradoras de casas decentes e pobres. As paredes nuas são quase um logotipo desses bairros que se vão construindo na medida das posses precárias dos seus moradores. É gente que luta, deseja viver, melhorar e sabe que só conta consigo mesma para isso. Em suma, o Brasil real.

Em Antônia, esse Brasil da realidade é captado pela câmera sempre inteligente de Jacob Solitrenick, que retoma, em certos momentos, a instabilidade muito estimulante do primeiro filme de Tata, Um Céu de Estrelas, que tinha Hugo Kovenski na câmera. Em Através da Janela, Tata preferiu uma estabilidade visual para retratar uma existência que parecia ordenada, embora a desordem trabalhasse abaixo da superfície. Agora, em sua incursão à periferia, volta a um tratamento visual aparentado ao de um documentário, que sugere a urgência das imagens.

Essa opção, e mais o som captado por João Godoy e a montagem de Idê Lacreta, dão um resultado bastante interessante e que pode se traduzir em uma palavra: autenticidade. Para isso foi muito boa a decisão de Tata de trabalhar com gente da própria comunidade, preparada por Sérgio Penna. Esse é um caminho para o cinema brasileiro e já havia sido trilhado também por Fernando Meirelles em seu Cidade de Deus. Revela atores e poupa o espectador dos mesmos rostos que está cansado de ver na TV.

Antônia é otimista sem ser ilusório e emotivo sem cair na pieguice. Falta-nos pensar no que significa a presença desses novos personagens numa cena social pautada mais pelo imobilismo do que pela transformação. Seria sintoma de que algo está realmente mudando na sociedade brasileira ou seria apenas uma presença cosmética para aplacar a má consciência das classes média e alta? Questões, a serem pensadas.

(SERVIÇO)
Antônia (Br/2006, 90 min) – Musical. Direção Tata Amaral. 12 anos. Em grande circuito.Cotação: Bom