Elza
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Elza

Luiz Zanin Oricchio

21 de março de 2011 | 23h06

Há muitos depoimentos – alguns bons e mesmo excelentes – no documentário Elza, de Ernesto Baldan e Izabel Jaguaribe. Nenhum supera, em sabedoria, o de João de Aquino. Diz o violonista: “A verdade da Elza Soares está no canto dela. Não adianta dizer que ela é boazinha ou que não presta. Quem quiser entender a Elza tem que entender o canto dela.” Perfeito. Não adianta entrevistar um cantor – é melhor ouvi-lo cantar. Não adianta saber o que pensam os outros de determinado artista – é preciso vê-lo, ouvi-lo, senti-lo.

De certo modo, a consciência desse fato, e sua negação, fazem a força e a debilidade do documentário. A cineasta sabe que é meio inútil tentar decifrar o mistério Elza. E, no entanto, tenta fazê-lo, através de depoimentos de colegas, como Caetano Veloso Maria Bethânia, e especialistas, como José Miguel Wisnik e Hermano Vianna. Ao mesmo tempo, deixa que ela “fale” por si mesma. Ou seja, deixa que cante. E que nos confronte com seu enigma. Quem é essa criatura que se apresenta na tela cantando Lama, diretamente para nós? De quem é esse rosto, esculpido pela vida e por mil plásticas? De onde vez essa voz, que parece à beira do abismo em notas mais agudas, que se refugia no fundo da garganta e nos toca lá, naquela região que, um pouco por pudor, chamamos de “no fundo da alma”?

Elza é a nossa Billie Holliday? O nosso Louis Armstrong de saias? Há aproximações possíveis. Até mesmo na maneira como Elza pratica o scat singing, típico do cronópio Louis, e desenvolve assim um prazer pelo improviso. Sambista genial, consegue expandir o samba em mil direções inesperadas. Arte é surpresa. E Elza nunca está onde pensamos encontrá-la. É um milagre brasileiro. O da transmutação da miséria em ritmo e alegria. Não se explica.

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