Elza Soares e Louis Armstrong ou a alegria conquistada
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Elza Soares e Louis Armstrong ou a alegria conquistada

Luiz Zanin Oricchio

21 de janeiro de 2022 | 10h38

Elza e Louis

 

Elza Soares e Louis Armstrong ou a alegria conquistada

Há momentos em que o sublime passa pela possibilidade iminente do erro. Outro dia fui ver o show de Elza Soares, apropriadamente chamado de Dura na Queda. Ela estava gripada, rouca, quase afônica. A cada vez que a música pedia uma nota mais aguda, a plateia ficava em pânico. “Não vai dar”, acho que cada um pensava no íntimo. Dava. Seja por esforço, seja por técnica, porque ela mudava de oitava e assim ia tocando a bola, com a graça de quem um dia já foi a senhora Mané Garrincha. Pode soar estranho, mas esse balé cm a precariedade tornou a apresentação ainda mais encantadora. Não se trata de uma opinião subjetiva. No fim, Elza foi carregada por uma onda de aplausos. 

Exigiram um bis e ela deu. Não pediram mais por pura piedade, porque, no fim, ela parecia feliz, exultante mesmo, mas branqueada. Foi uma apoteose. E, por incrível que pareça, ouvi-la e vê-la (porque o espetáculo é também visual) cantar, derrubada por uma gripe paulistana, serviu para relembrar a grande artista que ela é. Elza é brilhante na divisão rítmica. Soa original na interpretação até de temas surrados. 

Vai do rascante ao aveludado, sem transição, como numa ciclotimia vocal que desafia os manuais do bel canto. Escolhe bem o repertório e o grupo que a acompanha. Nada disso, no entanto, explica inteiramente a emoção que sua voz e sua presença despertam. 

No folheto distribuído pela organização do show, alguém escreve que Elza é uma sambista sui generis. Que estava preparada, mesmo sem saber, para incluir o rap e o funk em sua cosmovisão de sambista. Comparam-na ao grande Louis Armstrong, por sua voz rouca e também pelo talento no scat singing, aquela maneira de cantar usando palavras sem nexo, onomatopeias, incluindo na linha melódica a própria respiração, a expiração e a inspiração, enfim, tudo o que no corpo suspira, geme e goza. 

Tudo isso é verdade, como dizia Orson Welles naquele documentário sobre o Brasil que ele nunca acabou e que acabou com ele. Há em Elza alguma coisa de profundamente emocionante, como havia em Louis. Quem conheceu o velho Satchmo sabe que ele era tocante, mesmo quando buscava diretamente o sucesso de apelo popular, mesmo quando fazia suas artes e palhaçadas de palco para divertir um público branco e rico. Louis fazia essas concessões e saia delas intacto, porque havia nele uma integridade maior que o preservava. ERa a sua voz, um jeito de cantar que lembrava a todo mundo que aquele negro ali tinha nascido num bordel em New Orleans, havia roído a vida pelo lado mais duro, e vencido. Sua voz era testemunha de que alcançara a alegria atravessando o desespero, a tristeza, a miséria. 

Assim era Louis, assim é Elza. Em sua História Social do Jazz, o historiador Eric Hobsbawm diz que os negros norte-americanos só tinham dois caminhos para subir socialmente, o esporte ou a arte. No Brasil é parecido. E quando estamos ouvindo Elza, lembramos que sua origem se perde numa infância pra lá de modesta, e que aquele gingado, milagrosamente intacto nos seus quase 70 anos, talvez se deva ao exercício forçado de subir o morro carregando uma bela lata d’água na cabeça. Aeróbica das mulheres pobres do Rio de Janeiro e de todo o Brasil. Lembramos também que Elza foi casada com Garrincha, ao lado de Pelé o maior artista da bola de todos os tempos. Elza acompanhou Mané quando ele veio a São Paulo jogar pelo Corinthians, com o joelho já bichado e em fim de carreira. Mané morreu pobre, alcoólatra, esquecido, virou quase um arquétipo da tragédia social à brasileira. 

Elza deve pensar em tudo isso enquanto luta contra uma voz que teima em contrariá-la.Naquele momento, no palco de um teatro burguês, ela era esse gladiador acuado pelo adversário em uma arena romana. Era Mané pensando se o seu joelho daria conta de deixar para trás mais aquele João. Era a menina do morro, que precisa botar comida na mesa de casa e não sabe como. Naquele palco do Teatro Renaissance, Elza deve ter sentido medo de falhar. Boa lutadora, transformou o medo em virtude e fez de simples show de música um acontecimento simbólico e memorável. 

(Publicada no Estado de S. Paulo, 3 de agosto de 2000)

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